Cachorrinhos completam 17 voltas ao redor da Terra e contribuem para a exploração espacial após 27 horas em despressurizador
Belka e Strelka: as cadelas que desbravaram o espaço e marcaram a história da corrida espacial.
Em agosto de 1960, a União Soviética lançou duas cadelas, Belka e Strelka, a bordo da Korabl-Sputnik 2, onde permaneceram 27 horas em órbita antes de retornarem à Terra com vida. Este experimento foi crucial para entender como organismos vivos reagiriam às condições do espaço, além de preparar o caminho para o primeiro voo tripulado.
As cadelas, selecionadas entre os cães vira-latas das ruas de Moscou, foram escolhidas por sua resistência a ambientes adversos. Enquanto os Estados Unidos utilizavam macacos, os soviéticos acreditavam que esses cães eram mais fáceis de treinar e mais adequados para as condições extremas do espaço. A equipe de pesquisa estabeleceu critérios rigorosos para a seleção dos animais, incluindo peso, altura, idade e até mesmo características da pelagem.
Belka e Strelka passaram por um treinamento intensivo, que incluía a adaptação ao confinamento e ao uso de equipamentos de monitoramento. No início, eram conhecidas como Vilna e Káplia, mas receberam novos nomes que refletiam suas características: Belka, que significa “esquilo”, e Strelka, “flecha”.
27 horas no espaço: alimentação e desafios durante a missão
No dia 19 de agosto de 1960, as cadelas decolaram do cosmódromo de Baikonur em uma missão que também incluía diversos outros organismos, como camundongos e plantas, para estudar os efeitos do voo espacial. Pela primeira vez, os cientistas puderam monitorar as cadelas em tempo real via vídeo, observando suas reações durante todo o voo.
Durante a missão, a alimentação das cadelas foi adaptada para incluir uma geleia nutritiva, que era fornecida em recipientes que se moviam automaticamente. Apesar de terem se alimentado sem dificuldades, a quarta volta ao redor da Terra trouxe um momento de tensão: Belka demonstrou sinais de estresse, vomitando e tentando escapar das tiras de contenção. Esse evento alertou os pesquisadores sobre os possíveis efeitos psicológicos do voo espacial.
Belka e Strelka completaram 17 voltas ao redor da Terra antes de retornar à superfície. Quando a cápsula foi aberta, ambas estavam em boas condições e reconheceram seus cuidadores, um sinal de que, apesar das dificuldades, a experiência não as havia traumatizado.
O impacto do mal-estar de Belka na missão de Yuri Gagarin
A missão de Belka e Strelka teve um impacto significativo na preparação para o primeiro voo humano ao espaço. Os cientistas perceberam que, embora os sinais vitais das cadelas estivessem normais, o estresse poderia ser um fator crítico a ser considerado em futuras missões. Isso levou à decisão de limitar a duração do primeiro voo tripulado, que seria realizado por Yuri Gagarin.
Após a missão, as cadelas foram aposentadas e viveram no Instituto de Problemas Biomédicos, onde se tornaram celebridades na União Soviética, aparecendo em diversos materiais promocionais e se tornando ícones da corrida espacial.
Um gesto diplomático: o filhote de Strelka enviado à Casa Branca
Após o retorno da missão, Strelka deu à luz seis filhotes, e um deles, chamado Puchok, foi oferecido como presente à primeira-dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy. Este gesto simbólico ocorreu em um período de intensa rivalidade entre as duas potências, transformando um filhote de cadela em um curioso símbolo de diplomacia durante a Guerra Fria.
Assim, Belka e Strelka, que começaram como cadelas de rua, se tornaram figuras emblemáticas da história espacial. Elas não apenas sobreviveram a um dos experimentos mais desafiadores da época, mas também contribuíram significativamente para o entendimento das condições necessárias para a vida humana no espaço.