Renault planeja dobrar a velocidade de produção para competir com o mercado chinês
Renault enfrenta desafios para acelerar desenvolvimento de veículos em meio à concorrência chinesa.
Durante o congresso Automotive News Europe, François Provost, CEO da Renault, destacou um desafio crucial para a montadora: a verdadeira ameaça não é apenas o tamanho das fabricantes chinesas, mas sua habilidade de desenvolver veículos com uma velocidade significativamente superior à das concorrentes europeias.
Provost, que assumiu a liderança do grupo em julho de 2025, enfatiza a necessidade da Renault em aprender com as práticas das fabricantes chinesas, buscando acompanhar seu ritmo em termos de desenvolvimento e competitividade tecnológica.
Um exemplo notável apresentado pela montadora é o novo Twingo E-Tech, um carro elétrico urbano que foi desenvolvido em apenas 21 meses. Esse tempo é aproximadamente metade do que foi necessário para programas elétricos anteriores da marca, como o Renault 4 e o Renault 5, refletindo uma reformulação significativa nos métodos de trabalho da empresa.
Nos próximos cinco anos, a Renault planeja lançar 36 novos modelos, todos com um ciclo de desenvolvimento de cerca de 24 meses. Em contrapartida, os padrões europeus de desenvolvimento normalmente variam entre três a cinco anos, dependendo do segmento.
O método Twingo: menos burocracia
Para compreender essa mudança de paradigma, é essencial observar o Ampere China Development Center, inaugurado em Xangai em 2024. Com uma equipe de cerca de cem engenheiros, o centro teve um papel crucial na concepção do novo Twingo, beneficiando-se da experiência de fornecedores locais especializados em tecnologias elétricas.
A bateria de lítio-ferro-fosfato foi desenvolvida em colaboração com um fornecedor local, enquanto o sistema de propulsão elétrica foi fornecido por uma empresa especializada em Xangai. Essa bateria é uma novidade para a Renault, utilizando uma composição química mais econômica e uma arquitetura inovadora que integra as células diretamente ao compartimento da bateria.
A Renault ressalta que, embora parte do desenvolvimento ocorra na China, as decisões estratégicas e a maior parte da engenharia continuam a ser coordenadas a partir do Technocentre de Guyancourt, na França. O reaproveitamento da plataforma AmpR Small, já utilizada em outros modelos, também contribuiu para a economia de tempo no desenvolvimento.
A simplificação do processo incluiu a redução do número de protótipos físicos, a adoção de ferramentas digitais e uma linha de produção mais enxuta, com apenas uma opção de bateria e motorização.
O preço social da “velocidade chinesa”
Entretanto, essa transformação traz consigo desafios. A Renault anunciou planos para reduzir seu quadro global de engenheiros em 15% a 20% nos próximos dois anos, o que representa a eliminação de entre 1.650 e 2.400 postos de trabalho, de um total de aproximadamente 11.500 engenheiros em diversos países.
A montadora garante que não haverá demissões compulsórias e que as atividades estratégicas de concepção e desenvolvimento permanecerão na França. O foco é reduzir níveis administrativos e simplificar processos internos.
Essa abordagem também se reflete nas novas parcerias do grupo. Após um gradual afastamento da parceria com a Nissan, a Renault está formando colaborações mais específicas, como o desenvolvimento de pequenos carros elétricos para a Ford e cooperações com a Geely em projetos industriais na América do Sul e Coreia do Sul.
A joint venture Horse Powertrain, estabelecida com a Geely, permite que a Renault continue investindo em motores híbridos e a combustão, áreas nas quais a montadora acredita ainda ter competitividade frente às fabricantes chinesas.
Construir “rápido e bem”: uma conciliação impossível?
Essa revolução industrial levanta uma questão central: é viável desenvolver novos modelos rapidamente sem comprometer a qualidade?
Os automóveis modernos são extremamente complexos, incorporando mais de 100 milhões de linhas de código, superando até mesmo um avião comercial. A necessidade de sistemas de assistência à condução e arquiteturas elétricas sofisticadas torna as fases de validação mais críticas do que nunca.
Embora algumas marcas chinesas tenham demonstrado a capacidade de lançar novos modelos rapidamente, também mostraram os limites dessa abordagem, com veículos que necessitaram de atualizações significativas após o lançamento para corrigir falhas.
Apesar das investigações contínuas para identificar bugs eletrônicos, a dúvida persiste: será que a Renault e outras
