Vaticano se desculpa de joelhos: Indígenas do Peru denunciam abusos por serem pobres

Compartilhe essa Informação

Igreja Católica pede perdão a comunidades indígenas no Peru por abusos históricos

Autoridades da Igreja Católica se ajoelharam em um ato simbólico de perdão às comunidades camponesas do povo indígena Tallán, no Peru. O gesto ocorreu no final de maio e foi uma resposta a anos de denúncias de roubo de terras e perseguições por parte de grupos ligados ao Sodalício de Vida Cristã.

O Sodalício, fundado em 1971, foi alvo de investigações que revelaram abusos sexuais e corrupção, levando à sua dissolução em 2025 por ordem do papa Francisco. Durante a missa em Catacaos, monsenhor Jordi Bertomeu expressou arrependimento, afirmando que a Igreja deveria ter pedido desculpas há 20 anos.

A homilia foi solicitada pela comunidade San Juan Bautista, após um processo de escuta conduzido por Bertomeu. Ele descreveu o momento como emocionante, sentindo o peso histórico do pedido de perdão. Os membros da comunidade, que seguravam flores brancas, consideraram o ato como um passo em direção à justiça.

Os camponeses de Catacaos relataram que suas terras foram tomadas em 1998 por meio de uma transferência fraudulenta, sem o conhecimento da comunidade. Embora os direitos territoriais sejam reconhecidos desde o período colonial, a falta de títulos individuais facilitou a apropriação das terras.

Investigadores apontaram que muitos dos supostos participantes da assembleia que autorizou a transferência estavam mortos ou negaram ter assinado qualquer documento. As terras, posteriormente, foram repassadas a empresas ligadas ao Sodalício, que operavam sob uma estrutura jurídica de fachada.

O ex-arcebispo de Piura, José Antonio Eguren, foi uma figura central nesse processo. Embora tenha renunciado ao conselho da empresa ao assumir funções eclesiásticas, a influência do Sodalício nas decisões da Asociación Civil San Juan Bautista continuou a ser significativa.

A comunidade de Catacaos, que vive da agricultura e criação de gado, começou a enfrentar conflitos territoriais em 2011, quando grupos desconhecidos instalaram cercas em suas terras. Esses confrontos resultaram em violência, incluindo a morte de líderes indígenas que se opuseram à usurpação de suas terras.

O pedido de desculpas do Vaticano se alinha a uma mensagem anterior do papa Francisco, que incentivou a comunidade a defender suas terras. O Sodalício foi dissolvido devido a abusos de autoridade e encobrimento de crimes, segundo investigações do Vaticano.

Apesar do pedido de perdão, as comunidades enfrentam desafios legais. Em 2022, processos contra camponeses que tentaram recuperar suas terras foram arquivados, mas uma ação de amparo constitucional foi rejeitada em 2026. A Justiça alegou que o caso envolvia uma controvérsia de relevância legal e não constitucional.

Os camponeses agora buscam recorrer ao Tribunal Constitucional do Peru, mas muitos expressam desconfiança nas instâncias judiciais. A jornalista Paula Ugaz, que investigou os abusos do Sodalício, critica a falta de resposta da Justiça peruana às necessidades das comunidades vulneráveis.

Ainda assim, a Igreja promete um caminho de reparação econômica às vítimas, com a liquidação dos ativos do Sodalício. Bertomeu afirmou que a reparação é necessária, pois os danos foram causados por essa instituição.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *