Aumento do preço do açúcar: possíveis consequências da saída da Índia do mercado
Índia enfrenta escassez de açúcar para exportação devido a fatores climáticos e aumento da produção de etanol.
A Índia, que anteriormente se destacava como o segundo maior exportador de açúcar do mundo, enfrenta uma significativa escassez desse produto para exportação. A previsão é de que essa situação persista por pelo menos mais três safras, conforme informações de especialistas do setor e agricultores locais.
O principal fator contribuinte para essa escassez é a combinação do risco de redução na produção de cana-de-açúcar, exacerbado pelo fenômeno climático El Niño, e o crescente uso da cana para a produção de etanol. Essas pressões estão projetadas para manter milhões de toneladas de açúcar fora do mercado global, impactando diretamente a oferta para importadores na Ásia, África e Oriente Médio, além de sustentar os preços em mercados como Londres e Nova York.
A ausência prolongada da Índia nos mercados de exportação representa a perda de um fornecedor crucial, especialmente em um cenário onde os riscos climáticos e as políticas de biocombustíveis estão reconfigurando o comércio global de açúcar.
A escassez de açúcar é um tema sensível na Índia, onde o produto é amplamente consumido e muitas famílias de baixa renda dependem dele como uma fonte acessível de calorias. A oferta já estava reduzida e a situação se agravou com o El Niño, que agora se torna uma preocupação crescente. Especialistas alertam que se as chuvas não atenderem às expectativas, o plantio de cana será comprometido, mantendo a Índia fora do mercado de exportação por pelo menos três anos.
Além disso, Brasil e Tailândia, outros grandes exportadores, também podem ver suas safras afetadas pelas condições climáticas adversas. A Índia, que exportou em média 6,8 milhões de toneladas métricas de açúcar anualmente entre 2018 e 2022, já suspendeu as exportações até o final de setembro deste ano, após embarcar cerca de 800 mil toneladas.
As usinas indianas necessitam de autorização governamental para exportar açúcar, e é provável que o governo suspenda essas autorizações a cada safra, em vez de implementar uma proibição de longo prazo. Recentemente, um ministro do governo orientou as usinas a priorizarem a oferta interna em vez de focar nas exportações.
As previsões climáticas indicam que o El Niño deve enfraquecer as chuvas de monção na Índia, levando a uma das temporadas de chuvas mais secas em 11 anos. Isso resultou em um plantio tardio, com agricultores optando por cultivar culturas que demandam menos água, o que pode impactar negativamente a área plantada com cana-de-açúcar.
Estima-se que a produção de açúcar na Índia nesta safra seja de 27,9 milhões de toneladas, abaixo do consumo anual de aproximadamente 28,5 milhões de toneladas. Isso pode levar os estoques nas usinas a caírem para cerca de 3,5 milhões de toneladas, o nível mais baixo em mais de 30 anos.
Simultaneamente, a Índia está promovendo uma maior mistura de etanol na gasolina, com a expectativa de que a demanda por etanol dobre até 2039-40. A introdução de veículos flex-fuel e a eliminação de impostos sobre a produção de gasolina com maior teor de etanol são passos significativos nessa direção.
As futuras políticas governamentais provavelmente priorizarão a produção de etanol em detrimento das exportações de açúcar. Se as condições climáticas não melhorarem, a Índia poderá ser forçada a importar açúcar, uma situação que especialistas consideram cada vez mais provável nos próximos anos.
