El Niño severo pode comprometer alimentação básica de metade da população mundial e quase todo o Brasil
El Niño pode ameaçar a produção global de arroz, essencial para a alimentação mundial.
O fenômeno climático El Niño traz consigo uma série de consequências que vão além das ondas de calor e das alterações no regime de chuvas. Um episódio forte previsto para este ano pode comprometer a produção mundial de arroz, um alimento básico para mais da metade da população do planeta e que é consumido diariamente por milhões de brasileiros.
Além das mudanças provocadas pelo próprio El Niño, as temperaturas elevadas resultantes das mudanças climáticas podem intensificar ainda mais esses impactos. Especialistas alertam que a combinação desses fatores pode levar a uma crise na produção de arroz, afetando diretamente a segurança alimentar em várias regiões do mundo.
Arroz é um dos alimentos mais importantes do mundo
O arroz é a base da alimentação de mais de 50% da população global. Em países como Bangladesh, Vietnã e Camboja, esse cereal é responsável por mais da metade das calorias consumidas diariamente. Os dois maiores produtores são Índia e China, que juntos respondem por mais da metade da produção mundial.
No Brasil, apesar de não estar entre os principais produtores, o arroz é um alimento amplamente consumido, especialmente na tradicional combinação com feijão, o que o torna uma parte essencial da dieta brasileira.
El Niño pode reduzir chuvas em regiões produtoras
Durante um evento de El Niño, os padrões climáticos globais sofrem alterações significativas. Enquanto algumas regiões recebem chuvas em excesso, outras enfrentam longos períodos de seca. Entre as áreas que costumam ter redução nas precipitações estão o Sudeste Asiático, a Índia, parte da Austrália e o Sul da África.
Dado que a maior parte da produção de arroz está concentrada na Ásia, uma seca simultânea em diversos países pode comprometer a oferta global. O arroz, diferente de outros grãos, requer grandes quantidades de água para uma produtividade adequada, sendo que a maioria das variedades cultivadas atualmente cresce em lavouras alagadas. A água é fundamental para controlar ervas daninhas, manter a temperatura das plantas e favorecer o desenvolvimento dos grãos.
Embora existam variedades mais resistentes à seca, elas geralmente apresentam menor produtividade. Por isso, pesquisadores estão se dedicando ao desenvolvimento de cultivares que consigam aliar alta produtividade com uma maior tolerância à falta de água.
Embora a produção brasileira não deva ser severamente afetada, o mercado global pode sofrer as consequências, o que pode impactar os preços e, consequentemente, o bolso do consumidor brasileiro.
Problema pode afetar preços no mundo inteiro
O mercado internacional de arroz funciona de maneira distinta em relação ao trigo e ao milho. A maior parte da produção é consumida dentro do próprio país produtor, com menos de 10% sendo exportada. Isso implica que uma redução significativa na produção dos principais exportadores pode provocar aumentos rápidos nos preços globais.
Esse cenário foi observado em 2023, quando a Índia restringiu suas exportações para proteger o mercado interno, resultando em uma forte alta nos preços internacionais. Um El Niño mais intenso pode levar a novos países a limitarem suas exportações e a um aumento nas compras por pânico, relembrando a crise mundial do arroz entre 2007 e 2008.
Outro aspecto preocupante é o recente aumento no preço dos fertilizantes. A guerra no Irã e os impactos sobre o transporte marítimo no Estreito de Ormuz elevaram significativamente os custos desses insumos em 2026, tornando a produção agrícola ainda mais onerosa em um ano que pode ser marcado por condições climáticas desfavoráveis.
Cientistas buscam alternativas
Entre as estratégias em estudo estão:
- Desenvolvimento de variedades mais resistentes à seca
- Técnicas de irrigação mais eficientes
- Manejo que reduza o consumo de água sem comprometer a produtividade
- Investimentos em previsão climática e pesquisa agrícola
Adicionalmente, é essencial que os principais países produtores mantenham o comércio internacional aberto durante crises, evitando restrições às exportações que possam agravar a escassez e elevar ainda mais os preços.
