Produtores do agro buscam novos mercados após tarifas de Trump mudarem a rota do setor
Novo tarifaço de Trump deve provocar impacto de 36,5% no agronegócio brasileiro
As recentes tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos devem causar um impacto significativo nas exportações do agronegócio brasileiro, estimando-se uma perda de 36,5% em diversos segmentos.
Produtores, como Rodrigo Pamponet, que cultiva uvas no Vale do São Francisco, já começaram a redirecionar suas exportações. O mercado norte-americano, que antes era um dos principais destinos, agora ocupa um segundo plano. Em 2024, sua fazenda enviou cerca de 50 paletes de uvas para os EUA, mas esse volume despencou para apenas seis paletes no ano seguinte.
“A expectativa é de que minhas exportações para lá praticamente zerem, a menos que os importadores americanos aceitem absorver parte do custo adicional das tarifas”, relata Pamponet.
Entre os setores afetados estão as cadeias de uva, ovos, madeira, arroz e açúcar. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indica que a medida coloca sob pressão cerca de US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio nacional.
Os produtores têm buscado alternativas, como a abertura de novos mercados, o que permitiu que as exportações brasileiras mantivessem força. No ano passado, o Brasil alcançou um recorde histórico de exportações, totalizando US$ 348,7 bilhões.
Uma análise da XP Macro Research aponta que essa recuperação se deu pela capacidade dos produtores de redirecionar suas vendas para mercados como a China, compensando a queda nas exportações para os EUA.
A estratégia dos produtores
A cadeia da uva é uma das mais impactadas pela nova política tarifária. As exportações já estavam em declínio antes da imposição das tarifas, com a Europa se consolidando como o principal destino da fruta brasileira.
Atualmente, cerca de 70% da produção de uvas da fazenda de Pamponet é exportada para a União Europeia, enquanto 28% vai para a Argentina, que se tornou um mercado atrativo devido à proximidade geográfica e menores custos de transporte.
Os dados de comércio exterior refletem essa mudança: o volume de uvas brasileiras enviadas para a Argentina cresceu de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025. Em contraste, as importações dos EUA caíram drasticamente, de 13,8 mil toneladas em 2024 para apenas 4,1 mil toneladas em 2025.
Setor da uva teme freio nos investimentos
O Vale do São Francisco, que concentra 75% da produção nacional de uvas, é vital para a economia regional. Apesar da Europa ser o principal mercado, os EUA são considerados estratégicos devido à remuneração mais alta que oferecem.
“O mercado americano é importante em termos de preço. Essas uvas pagam muito bem nos Estados Unidos, mais do que na Europa. Então, quando se perde esse mercado, o efeito para o produtor é maior”, afirma um especialista da Embrapa.
O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina, Jailson Lira, destaca que, embora a abertura de novos mercados tenha amenizado a situação, a tensão persiste entre os produtores. A preocupação com a manutenção de empregos e renda na região é crescente, uma vez que a cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos, com uma significativa participação feminina.
Apesar das incertezas, o setor aguarda uma solução negociada antes de setembro, quando se inicia a principal janela de embarque de frutas para os EUA.
Outros setores também sentem os efeitos
Além da fruticultura, outros segmentos do agronegócio, como arroz, madeira e açúcar, também estão sendo afetados pelas novas tarifas. A Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) já se manifestou em audiências públicas nos EUA, defendendo a importância do arroz brasileiro para o abastecimento do país.
Embora a exposição do arroz ao mercado americano seja menor, a medida pode elevar os custos dos alimentos para os consumidores dos EUA, caso as tarifas sejam repassadas aos preços finais.
O setor de proteína animal também expressou preocupações. O impacto das tarifas sobre ovos e carne suína varia entre os produtos, mas a diminuição das exportações
