Pesquisadores da USP desenvolvem novo teste que reduz vantagem das superbactérias
Teste inovador reduz diagnóstico de bactérias resistentes em UTIs para seis horas.
Pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) agora podem ter a identificação de bactérias resistentes aos carbapenêmicos realizada em apenas seis horas. Essa inovação é fruto de um teste desenvolvido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e do Hospital das Clínicas da instituição.
A nova abordagem reduz em até 60 horas o tempo necessário para confirmar a presença dessas bactérias, que são conhecidas pela resistência a antibióticos utilizados em infecções graves. A agilidade no diagnóstico permite que hospitais revisem rapidamente as medidas de isolamento adotadas e otimizem a utilização de recursos.
Embora o método acelere a tomada de decisões pelas equipes de controle de infecção, os pesquisadores ressaltam que a redução do tempo de diagnóstico, por si só, não é suficiente para diminuir significativamente a transmissão desses microrganismos nas unidades hospitalares.
As Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos constituem um grupo de microrganismos que adquiriram resistência a antibióticos considerados como últimas opções terapêuticas para infecções graves. Espécies como Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli são classificadas como uma ameaça crítica à saúde pública pela Organização Mundial da Saúde.
Essas bactérias podem permanecer no intestino, uma condição conhecida como colonização, sem causar sintomas. Contudo, pacientes internados, especialmente aqueles em estado grave ou imunossuprimidos, têm maior risco de desenvolver infecções e transmitir esses microrganismos a outros pacientes.
O exame utiliza uma amostra obtida por swab retal, que é incubada por seis horas em um meio de enriquecimento antes de ser submetida a um teste imunocromatográfico. Essa tecnologia identifica a produção das enzimas responsáveis pela resistência e possibilita reconhecer qual tipo de carbapenemase está presente, informações cruciais para orientar estratégias de vigilância e controle de infecção.
Segundo um dos autores dos estudos, o principal diferencial da tecnologia é a combinação entre rapidez, simplicidade e menor custo operacional. Essa inovação proporciona a velocidade de um teste molecular caro, mas por uma fração do preço e sem a necessidade de máquinas complexas.
Durante a fase de validação, o método demonstrou desempenho máximo em testes laboratoriais para detectar as principais enzimas relacionadas à resistência bacteriana. A sensibilidade do teste, ao ser aplicado em amostras de pacientes internados em UTIs, variou conforme a qualidade da coleta, alcançando índices mais altos quando havia uma quantidade adequada de material biológico.
Os pesquisadores também observaram um impacto positivo na rotina hospitalar. O tempo necessário para retirar pacientes sem colonização das medidas preventivas de isolamento caiu de 47 para 23 horas. Apesar desse ganho operacional, não houve uma redução estatisticamente significativa na aquisição dessas bactérias durante a internação.
Outro estudo conduzido pela equipe identificou fatores associados à colonização e à aquisição dessas bactérias durante a internação. Pacientes transferidos entre hospitais ou com histórico recente de hospitalização apresentaram maior probabilidade de já ingressar colonizados na UTI.
O uso de antibióticos de amplo espectro, a utilização de sondas urinárias e a alta proporção de pacientes colonizados em uma mesma unidade aumentaram o risco de transmissão dentro do hospital.
Os pesquisadores também estimam benefícios financeiros com a adoção da nova tecnologia. Embora a cultura microbiológica convencional ainda seja o exame individualmente mais barato, a redução do tempo de isolamento desnecessário pode gerar economias semanais que variam entre 2,4 mil e 3,9 mil dólares para cada grupo de 100 leitos de UTI.
Na avaliação dos pesquisadores, a incorporação do teste ao Sistema Único de Saúde poderia beneficiar principalmente hospitais que enfrentam maior circulação dessas bactérias resistentes. No entanto, a tecnologia ainda precisa passar por etapas regulatórias e pela análise dos órgãos responsáveis pela incorporação de novas tecnologias ao sistema público.
