1.297 partidas em 24 horas revelam fazendas de esportes que abastecem casas de apostas online

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A indústria de apostas esportivas amadoras revela um cenário alarmante de exploração e manipulação.

Às 4h30 da madrugada, um goleiro do “Amsterdam” sai de campo para buscar uma bola perdida na quadra ao lado. No espaço vizinho, separado apenas por uma cortina, outra partida está sendo disputada. Em breve, ele também jogará ali, possivelmente por outro time.

Não há emoção nem expressão em seu rosto; ele simplesmente pega a bola e a devolve à sua quadra. À primeira vista, poderíamos estar observando um centro esportivo de bairro, mas os gestos mecânicos e quase burocráticos desse atleta revelam uma realidade distópica. O resultado da partida parece ser o que menos importa; o essencial é nunca parar de jogar.

Uma investigação recente revelou que a 1xBet, uma casa de apostas sediada no Chipre, transmite ao vivo milhares de partidas amadoras anualmente, a partir de ginásios sem público na Rússia, na Ucrânia e em Belarus. Em um único período de 24 horas, foram identificadas 1.297 partidas de “short football”, uma variante do futsal, superando o total de partidas disputadas em uma temporada inteira pelas principais ligas europeias, como Bundesliga, Premier League e LaLiga. Anualmente, a 1xBet transmite cerca de meio milhão de partidas.

Os jogadores frequentemente trocam de camisa entre as partidas; o “Barcelona” se transforma em “Manchester City” em questão de meia hora, enquanto equipes com nomes de clubes europeus que não existem se enfrentam em quadra. Em 2021, um blogueiro russo especializado em futebol já havia denunciado que esses atletas eram recrutados para jogar em turnos, com partidas combinadas previamente. Um jovem jogador relatou que recebia pagamento para jogar das nove da manhã às duas da tarde, disputando uma partida atrás da outra diante das câmeras da 1xBet.

Ismail Vali, ex-CEO da empresa de análise Yield Sec, explicou que a 1xBet mantém uma estrutura que movimenta pouco dinheiro, já que apostas em partidas de basquete infantil na madrugada atraem poucos apostadores. Essas partidas servem para manter os usuários engajados e direcioná-los para produtos com margens de lucro maiores, como cassinos, que podem gerar até 50% de lucro. O ciclo de exploração se perpetua, com a indústria de apostas alimentando seu próprio vício.

A Bellingcat rastreou locais onde as partidas acontecem, como a escola de futebol Alexander Stepin, na cidade russa de Briansk, que possui vínculos com o partido governista e com a estatal Gazprom. Em fotos, crianças aparecem posando com armas na mesma instalação onde as partidas são gravadas. Em Severodvinsk, uma partida feminina de floorball disputada por meninas de 14 e 15 anos foi identificada, sem que se soubesse se elas tinham consciência de que o jogo alimentava um mercado de apostas. Em Saransk, o mesmo centro esportivo que recebe partidas para a 1xBet também abriga cursos de treinamento com armas.

Enquanto isso, a 1xBet figura como patrocinadora de grandes clubes europeus. O FC Barcelona renovou seu contrato com a casa de apostas até 2029, poucos meses antes da investigação ser publicada, e o Paris Saint-Germain ampliou seu acordo até 2028, quase um ano após a divulgação da reportagem. A falta de resposta dos clubes sobre a situação levanta sérias questões sobre a ética dessas parcerias.

Estima-se que o mercado global de apostas online não regulamentadas alcançou 5,9 trilhões de dólares em 2025, com operadores ilegais concentrando 78% da receita bruta do setor. Nos Estados Unidos, onde as apostas esportivas são regulamentadas na maioria dos estados, os operadores legais movimentaram quase 150 bilhões de dólares em apostas durante 2024, gerando 13,71 bilhões de dólares em receita. No entanto, isso representa apenas uma fração do que circula à margem da legalidade. As “fazendas esportivas” são apenas a superfície de um problema muito maior.

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