Data center de IA na Amazônia provoca discussão sobre riscos de ilhas de calor e falta de regulamentação no Brasil
Belém terá o 1º data center de IA da Amazônia
A área portuária de Miramar, no bairro do Barreiro, em Belém, será o local do primeiro data center para Inteligência Artificial da Amazônia, denominado BEL1, da Elea Data Centers. Este projeto está sob investigação do Ministério Público do Pará (MPPA), que expressa preocupações sobre o risco de formação de “ilhas de calor” em uma região já afetada por altas temperaturas. Além disso, destaca-se a falta de regulamentações ambientais específicas para a instalação de data centers no Brasil.
Data centers são estruturas que armazenam e processam informações utilizando servidores e chips de processamento. Para lidar com grandes volumes de dados, esses equipamentos consomem considerável energia e geram calor, necessitando de sistemas de resfriamento para dissipar esse calor no ambiente.
O projeto começará com uma capacidade de 7,5 megawatts, com planos de expansão para até 100 megawatts. Especialistas observam que essa potência inicial é suficiente para abastecer mais de 22,5 mil residências na região Norte, conforme dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE).
Previsto para iniciar suas operações no segundo trimestre de 2027, o BEL1 tem como objetivo ampliar o acesso da região Norte à Inteligência Artificial, computação em nuvem e serviços digitais, reduzindo a dependência de servidores localizados em outras partes do país e no exterior.
Calor dissipado em região quente
A instalação do data center levanta questões sobre os impactos ambientais. O MPPA investiga os potenciais riscos de criação de ‘ilhas de calor’, que poderiam aumentar a temperatura urbana, além da falta de licenciamento ambiental e consultas públicas adequadas.
O promotor Márcio Maués está avaliando a legalidade da instalação e os riscos climáticos associados. Ele menciona um estudo da Universidade de Cambridge que sugere que data centers podem elevar a temperatura da superfície terrestre em média 2°C, com picos de até 9,1°C, afetando áreas em um raio de até 10 km.
A pesquisa de Cambridge, que utilizou dados de satélite da NASA, revelou um aumento médio de 2,07°C na temperatura da superfície logo após o início das operações de mais de 8 mil data centers ao redor do mundo. Os cientistas descobriram que o efeito térmico se estende por até 10 km, mas diminui rapidamente com a distância.
Maués também ressalta a vulnerabilidade das comunidades ribeirinhas próximas, como a Ilha das Onças, que está a apenas 4,5 km do local. Essas populações não foram consultadas, em desacordo com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Não houve consultas públicas com moradores dos bairros Miramar, Barreiro, Sacramenta e Pratinha, próximos à instalação do data center.
O empreendedor e ambientalista Murilo Monteiro, residente na Sacramenta, expressou preocupação com a falta de diálogo com a comunidade local. Ele enfatiza a necessidade de transparência e participação social desde o início do projeto.
O pesquisador Juliano Ximenes, da UFPA, também compartilha a preocupação, observando que data centers geram calor, elevando a temperatura em áreas que já enfrentam altas sensações térmicas.
A Elea planeja utilizar sistemas de ar-condicionado para resfriar os equipamentos, optando por uma “expansão direta”, um método de refrigeração comum em data centers.
O CEO da Elea, Alessandro Lombardi, afirmou que estudos mais profundos sobre o impacto térmico só serão realizados na fase de 100 MW, que ainda não tem previsão de implementação.
Lombardi acredita que a fase inicial não terá impactos significativos, comparando-a a um shopping center de médio porte.
Sem regras no Brasil
A Elea adquiriu um terreno em uma área industrial privada e afirma estar seguindo os trâmites de licenciamento para grandes consumidores de energia. No entanto, órgãos ambientais de Belém e do estado do Pará informam que não há pedidos de licenciamento em análise.
O promotor Maués expressou a preocupação de que o projeto já esteja definido, enquanto as etapas de licenciamento sejam tratadas como meras formalidades.
A empresa Elea declarou que as licenças ambientais necessárias estão sendo solicitadas dentro dos prazos legais. A Secretaria de Meio
