Conflito no Mar Negro pode impactar abastecimento de alimentos no Brasil
Conflitos no Mar Negro impactam diretamente os preços dos alimentos no Brasil.
Nas últimas semanas, a intensificação dos ataques no Mar Negro tem afetado severamente a logística de grãos. Estruturas russas em Novorossiysk, um ponto estratégico de exportação de trigo, foram alvo de ações ucranianas, enquanto o porto de Izmail, na Ucrânia, foi atacado, complicando as rotas de exportação agrícola.
A reação do mercado foi imediata. Desde meados de julho, o preço do trigo na Bolsa de Chicago aumentou cerca de 10%, saltando de US$ 6,45 para US$ 7,09 por bushel. Após um ataque em 12 de agosto ao terminal de Novorossiysk, o preço do cereal subiu mais 3% em um único dia, refletindo a incerteza no fornecimento. O milho também seguiu a tendência de alta.
Mas como uma guerra distante pode afetar o preço do pão, da carne e dos ovos no Brasil? A resposta está intimamente ligada à geografia e ao comércio mundial.
Rússia e Ucrânia são players significativos no mercado global de grãos. Qualquer interrupção nos embarques gera uma imediata alteração nas expectativas de oferta, levando a uma pressão sobre os preços.
O mercado não espera a falta do produto, mas sim a possibilidade de interrupções. Isso leva os compradores a buscar novos fornecedores, encarecendo fretes e seguros e incorporando um prêmio de risco ao preço dos grãos.
A situação se complicou após a negativa da Rússia em considerar uma trégua específica para a navegação no Mar Negro. A Ucrânia sugeriu a suspensão de ataques a navios civis, mas Moscou afirmou não ter recebido formalmente a proposta, aumentando o risco no transporte marítimo.
O trigo é a maior vulnerabilidade brasileira
Apesar de ser uma potência agrícola, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos relacionados à importação de trigo. A Argentina é o principal fornecedor, mas os preços praticados refletem as cotações internacionais, o valor do dólar, o custo do frete e a disponibilidade do produto. Para agravar a situação, a safra brasileira deve ser menor este ano.
A produção está estimada em cerca de 6,3 milhões de toneladas, uma queda de aproximadamente 19% em relação ao ciclo anterior. A área plantada deve recuar cerca de 12,5%, impactando também a produtividade.
Dessa forma, o Brasil entra em um período de instabilidade com menos trigo disponível, aumentando a necessidade de importações.
Com o aumento dos preços no exterior e a desvalorização do real, a pressão sobre os moinhos é inevitável. Isso, por sua vez, impacta os preços de produtos como farinha, pão, massas e biscoitos, que são essenciais na dieta das famílias brasileiras.
Assim, um ataque em um porto distante pode refletir, semanas depois, no preço do café da manhã.
Por que o milho também sobe?
No caso do milho, o impacto é um pouco menos direto, mas igualmente significativo. Com o trigo escasso e caro, muitos compradores podem optar pelo milho como alternativa na alimentação animal, aumentando a demanda pelo cereal.
No Brasil, o milho é fundamental na alimentação de aves, suínos, leite e ovos, além de ter se tornado relevante na produção de etanol. Assim, diferentes setores estão disputando o mesmo produto.
Uma valorização prolongada do milho pode encarecer as rações, afetando as margens dos produtores e, consequentemente, pressionando os preços das proteínas.
Por outro lado, o Brasil, sendo um grande exportador de milho, pode encontrar oportunidades nos mercados internacionais diante das dificuldades enfrentadas por Rússia e Ucrânia. Para os exportadores, isso representa uma vantagem, enquanto para os produtores de proteína animal, gera custos adicionais.
Esse é um paradoxo do agronegócio: a mesma alta que beneficia os exportadores pode prejudicar os produtores e impactar os consumidores.
O risco não termina nos grãos
A guerra também traz aumentos nos custos de transporte, seguros marítimos, energia e combustíveis.
Com o petróleo mais caro, o preço do diesel sobe, impact
