Gastos com nuvem soberana na Europa devem aumentar três vezes até 2027, indica Gartner
Investimento em nuvem soberana na Europa deve triplicar até 2027, impulsionado por tensões geopolíticas e preocupações regulatórias.
O investimento europeu em serviços de nuvem soberana está projetado para mais que triplicar entre 2025 e 2027. Esse crescimento é impulsionado por tensões geopolíticas, preocupações regulatórias e o crescente debate sobre soberania digital.
Estima-se que o gasto global com nuvem soberana alcance US$ 80 bilhões em 2026, representando um crescimento de 35,6% em relação a 2025. Embora regiões como Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico apresentem taxas de crescimento ainda mais expressivas, a Europa se destaca pelo volume absoluto de investimentos, começando com uma base significativa de US$ 6,9 bilhões em 2025.
A crescente preocupação com a dependência de provedores estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos, está no cerne desse movimento. O Cloud Act, legislação americana que permite o acesso de autoridades dos EUA a dados de empresas, mesmo que armazenados fora do país, é um dos principais fatores que alimentam essa inquietação.
As tensões comerciais e políticas entre Europa e Estados Unidos se agravaram, especialmente com a possibilidade do retorno de Donald Trump à presidência. Isso levou executivos europeus a questionarem se empresas de tecnologia americanas poderiam, em um cenário extremo, suspender serviços a determinados clientes ou instituições.
Restrição de acesso
Um incidente que evidenciou esse receio ocorreu com o Tribunal Penal Internacional, que teve seu acesso a serviços da Microsoft temporariamente restrito após sanções dos EUA ao promotor-chefe, Karim Khan. Embora a Microsoft tenha afirmado que não interrompeu serviços ao tribunal, o episódio levantou questionamentos e resultou na adoção do OpenDesk, uma suíte colaborativa de código aberto desenvolvida por uma entidade alemã.
De acordo com especialistas, a geopolítica começou a influenciar as decisões de infraestrutura digital desde o início de 2025. A incerteza atual dificulta o planejamento a longo prazo, levando não apenas diretores de tecnologia, mas toda a alta administração a reavaliar a dependência de provedores dos EUA.
Esse movimento está alinhado a uma agenda mais ampla de soberania estratégica e econômica. A competitividade de provedores locais e regionais depende de investimentos direcionados a essas empresas. Exemplos incluem um aporte de € 11 bilhões da Schwarz Gruppe em sua plataforma de nuvem, além de investimentos da francesa OVHcloud. Contudo, a capacidade total desses provedores ainda é inferior à dos grandes players americanos.
Executivos de grandes indústrias europeias reconhecem o desafio. A vice-presidente executiva digital da Airbus destacou a importância de parcerias entre empresas europeias e americanas para desenvolver competências locais, comparando essa estratégia ao aprendizado industrial europeu após a guerra.
No entanto, a migração em massa para nuvens não americanas ainda não está em pauta. As empresas tendem a direcionar novas cargas de trabalho para provedores soberanos locais, mantendo sistemas legados em hyperscalers já utilizados.
Enquanto isso, provedores americanos continuam a lançar ofertas voltadas para a soberania europeia. A Microsoft expandiu seu conceito de “EU Data Boundary”, a Amazon Web Services lançou sua European Sovereign Cloud, e empresas como Google e Oracle também estão reforçando suas estruturas no continente. Apesar dessas iniciativas, persistem dependências organizacionais que mantêm o debate sobre soberania em aberto.
