Quatro senadores reavaliam impeachment de Dilma uma década após o evento
Reflexões sobre o impeachment de Dilma Rousseff marcam uma década de controvérsias políticas.
Após dez anos do julgamento que resultou no afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência, ao menos quatro senadores que participaram da votação expressaram algum tipo de autocrítica ou revisão pública sobre a decisão. Renan Calheiros (MDB-AL) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) consideraram o impeachment um erro, enquanto Aloysio Nunes Ferreira (SP) afirmou que teria sido melhor permitir que Dilma completasse seu mandato. Cristovam Buarque (DF) também reconheceu ter “errado como político”.
O processo de impeachment começou a ganhar força no Congresso em 17 de abril de 2016, quando a Câmara autorizou sua abertura. Em 12 de maio, o Senado instaurou o processo e afastou Dilma temporariamente. O julgamento culminou em 31 de agosto, quando a cassação foi aprovada por 61 votos a 20.
As revisões feitas pelos senadores apresentam diferentes graus de reflexão. Enquanto alguns questionaram a decisão em si, outros focaram nas consequências políticas que dela resultaram. Há também aqueles que mudaram de filiação partidária sem alterar sua posição sobre o impeachment, como Simone Tebet. No mesmo dia da cassação, o Senado decidiu pelo afastamento de Dilma com a mesma votação de 61 a 20.
Dilma foi afastada do mandato presidencial em definitivo em 31 de agosto de 2016 após julgamento no Senado.
Renan: “Problemas se agravaram”
Renan Calheiros, que era presidente do Senado durante o julgamento, fez uma autocrítica clara. Em entrevista de junho de 2017, ele afirmou que o impeachment foi um erro, destacando que a expectativa de que a saída de Dilma resolveria os problemas do país não se concretizou. Renan observou que, ao contrário, todos os problemas se intensificaram. Na votação de 31 de agosto de 2016, ele votou pela cassação, mas se opôs à inabilitação de Dilma por oito anos, afirmando que “além da queda, coice”.
Tasso: erro e desarrumação
Tasso Jereissati também passou a considerar o impeachment um erro. Em resposta a questionamentos, ele confirmou essa avaliação e associou o processo a uma desarrumação política que resultou na perda de prestígio e unidade dos partidos no período subsequente.
Aloysio: PSDB andou em “má companhia”
Aloysio Nunes Ferreira, ex-senador e candidato a vice-presidente em 2014, revisou sua posição política sobre o impeachment. Em entrevista recente, ele afirmou que teria sido melhor deixar Dilma concluir seu mandato. Aloysio criticou a aliança do PSDB com a extrema-direita durante o processo e relacionou essa decisão ao início da crise do partido. Embora não tenha invalidado a cassação juridicamente, ele acredita que um caminho diferente teria gerado resultados mais positivos. Em 2022, Aloysio declarou apoio a Lula e, no ano seguinte, deixou o PSDB, filiou-se ao PSB e assumiu um cargo na Apex na Bélgica.
Cristovam diz que cometeu erro político
Cristovam Buarque, que na época era senador pelo PPS, reconheceu que seu voto foi uma decisão como economista, mas admitiu ter cometido um erro político. Apesar de não se considerar arrependido, ele reconheceu as consequências negativas do impeachment.
Tebet mudou de campo, não de opinião
Simone Tebet, senadora pelo MDB na época, votou pela cassação, mas sua posição não mudou ao longo dos anos. Em 2022, ela se candidatou à Presidência, apoiou Lula no segundo turno e, posteriormente, tornou-se ministra do Planejamento. Em entrevista de 2024, Tebet reiterou que o impeachment não foi um erro, defendendo que havia fundamentos constitucionais para a decisão e elogiando a honestidade de Dilma.
As autocríticas sobre o impeachment permanecem uma exceção entre os senadores que votaram pela cassação. Uma década após o evento, muitos dos envolvidos mudaram de partido ou de avaliação sobre as consequências, mas poucos admitiram publicamente que a decisão foi equivocada.
