Famílias de detentos investem R$ 4 bilhões anuais em visitas
Pesquisa revela o alto custo das visitas a detentos e o impacto nas famílias brasileiras.
Uma pesquisa realizada pela Pastoral Carcerária Nacional revelou que as famílias de pessoas encarceradas enfrentam gastos significativos para garantir visitas aos seus entes. O estudo, que entrevistou 2.706 pessoas em todo o país entre dezembro de 2025 e abril deste ano, destaca os desafios financeiros e emocionais enfrentados por essas famílias.
Os dados mostram que, em média, as famílias chegam a gastar mais de R$ 1.000 por mês para manter o contato com os detentos. Esses custos incluem transporte, alimentação, hospedagem e a compra de itens de higiene e mantimentos. Com base nos cálculos, o gasto anual totaliza mais de R$ 4,3 bilhões, evidenciando uma “economia invisível do cárcere” que transfere o ônus financeiro do Estado para as famílias, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade.
Entre as possíveis soluções para aliviar essa carga financeira está o auxílio-reclusão, um benefício previsto na Lei 8.213/1991, destinado aos familiares de detentos que trabalharam formalmente. Contudo, apenas 2,47% dos familiares atualmente recebem esse auxílio. Recentemente, a aprovação da “Lei Antifacção” restringiu ainda mais o acesso a esse benefício, excluindo dependentes de indivíduos presos por envolvimento em organizações criminosas.
A coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, Irmã Petra Silvia Pfaller, alertou que a extinção do auxílio-reclusão pode agravar a situação das famílias, especialmente mulheres, idosos e crianças, que já enfrentam dificuldades financeiras. Ela enfatizou que a perda desse direito essencial pode condená-las a condições de miséria e longas jornadas para visitar os detentos.
A pesquisa também detalha os custos das visitas, que, em média, são de R$ 189,89 por visita semanal. Além disso, o gasto com um “kit médio” para o detento, que inclui itens de higiene e alimentos, chega a R$ 293,52. Assim, os custos mensais podem variar de R$ 464,45 a R$ 1.053,09, dependendo da frequência das visitas.
Os dados revelam que a responsabilidade financeira pelas visitas recai desproporcionalmente sobre as mulheres, com 94% dos respondentes sendo do gênero feminino. A pesquisa também aponta que 65,5% dos entrevistados se identificam como pessoas pretas ou pardas, refletindo uma profunda desigualdade racial e de classe no sistema prisional. Além disso, 58,9% das mulheres relataram ter sofrido violência ou constrangimento durante as visitas, evidenciando as dificuldades enfrentadas por essas famílias no acesso ao sistema de justiça.
Essas informações destacam a necessidade urgente de políticas públicas que considerem o impacto do encarceramento nas famílias e busquem mitigar os custos financeiros e emocionais associados ao sistema prisional.
