Delegada revela submundo de crimes contra crianças nas redes e critica descaso de grandes empresas de tecnologia
Relatório revela alarmante aumento de endereços no Telegram relacionados a crimes contra crianças.
Um recente relatório da SaferNet destacou a existência de 1.093 endereços no Telegram que apresentam indícios de violência sexual contra crianças e adolescentes, além de outros delitos. Este levantamento ocorre em um contexto de crescente preocupação social, especialmente após um aumento recorde de denúncias em julho de 2026 e a tragédia do suicídio de uma adolescente durante uma transmissão ao vivo no Discord.
A delegada Lisandrea Colabuono, que faz parte do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, compartilha sua experiência sobre a investigação desses crimes nas redes sociais. Ela observa que as vítimas, na maioria dos casos, são meninas entre 6 e 14 anos. “A partir do momento em que ela manda a primeira foto ou vídeo íntimo, a vida dela acabou”, alerta Colabuono, enfatizando a gravidade da situação.
A delegada destaca que a Polícia Civil atua em colaboração com diversas instituições para prevenir e combater crimes digitais. O Brasil possui uma legislação mais robusta, com a implementação do ECA Digital e a Lei nº 15.487/2026, que tipifica como crime hediondo a hospedagem de ambientes de abuso e estabelece um dever de cuidado sistêmico.
Entretanto, Colabuono critica a falta de cooperação das plataformas digitais, especialmente o Telegram, que só responde a solicitações de investigação mediante ordem judicial. A delegada acredita que uma maior colaboração das empresas poderia evitar tragédias e crimes cometidos ao vivo.
A investigação do Telegram revela um ecossistema complexo e desafiador. A plataforma é frequentemente utilizada para atividades ilícitas, e a falta de respostas rápidas para as solicitações de dados de vítimas e suspeitos compromete o trabalho policial. Colabuono salienta que o tempo de investigação é um, mas o tempo para salvar uma vida online é outro, e a agilidade na obtenção de informações é crucial.
As vítimas são frequentemente aliciadas em jogos online e redes sociais. Os agressores iniciam uma amizade virtual que rapidamente se transforma em um relacionamento abusivo, levando as vítimas a enviar imagens íntimas. A delegada relata que, uma vez que a vítima envia a primeira foto, ela se torna refém do agressor, que a chantageia e explora a situação.
O Discord, originalmente criado para gamers, também se tornou um canal para a disseminação de crimes. Colabuono aponta que servidores com conteúdo ilegal existem sem moderação adequada, e as respostas das plataformas a solicitações de remoção são lentas, permitindo que os crimes continuem ocorrendo.
A articulação entre o Noad, a Polícia Federal e outros órgãos é fundamental para evitar a duplicidade de investigações. No entanto, a delegada observa que a maioria dos crimes digitais envolve menores como autores, o que dificulta a atuação da Polícia Federal, que não investiga casos com adolescentes envolvidos.
Além disso, os profissionais de saúde desempenham um papel crucial na identificação de vítimas de violência. Colabuono enfatiza a importância de capacitar médicos e enfermeiros para reconhecer sinais de abuso, como cortes no corpo que representam o domínio do agressor sobre a vítima.
A sociedade civil e as famílias também têm um papel importante na proteção dos jovens online. É necessário promover uma cultura de segurança digital, onde os pais busquem informações sobre como proteger seus filhos na internet, assim como se preocupam com questões cotidianas.
Se você conhece algum jovem que possa estar sofrendo violência sexual online ou maus-tratos, denuncie. É possível abrir uma denúncia sobre crimes previstos na legislação do ECA Digital através da plataforma gov.br.
