A conexão ausente entre ciência e indústria

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Vannevar Bush e o legado da pesquisa científica no Brasil

Vannevar Bush, figura central na política científica do século XX, desempenhou um papel crucial na mobilização da ciência durante a Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho culminou no relatório “Science, the Endless Frontier”, que defendia o financiamento estatal da pesquisa básica como motor de inovações e melhorias sociais.

Embora não tenha utilizado a expressão “abordagem linear e ofertista de ciência e tecnologia”, seu relatório se tornou uma referência fundamental para o modelo linear de inovação. Essa abordagem influenciou políticas de ciência e tecnologia em diversos países, incluindo o Brasil, onde muitos conceitos foram inspirados em suas ideias.

Com o passar do tempo, ficou claro que a realidade da inovação é muito mais complexa do que a linearidade proposta por Bush. Estudos realizados desde a década de 1980 demonstraram que o processo de inovação não é sequencial e que as empresas desempenham um papel central, interagindo com diversos atores, como universidades e fornecedores, para acumular conhecimento e desenvolver capacidades.

Recentes auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre os programas de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) nos setores de petróleo, gás e mineração revelaram a necessidade de integrar pesquisa e demanda local para fortalecer a competitividade das empresas. As análises apontaram fragilidades nas políticas atuais, que ainda refletem a lógica linear, e destacaram a importância de mapear a capacidade produtiva e tecnológica da cadeia fornecedora.

Os desafios identificados nas auditorias são interligados: financiar pesquisa não garante que as empresas consigam transformar conhecimento em inovação, e exigir compras locais não assegura que as empresas brasileiras desenvolvam as competências necessárias para competir. A construção de capacidades tecnológicas nas empresas é o elo que precisa ser fortalecido.

O Brasil deve buscar uma política industrial que conecte ciência, inovação e desenvolvimento de capacidades empresariais. O objetivo deve ser não apenas promover a pesquisa e a compra local, mas também garantir que as empresas acumulem conhecimento e habilidades para inovar, competir e atender à demanda local, além de exportar.

O legado de Vannevar Bush permanece relevante: a ciência é fundamental para a fronteira tecnológica. Contudo, 80 anos após suas contribuições, é essencial reconhecer que o aprendizado das empresas não pode ser tratado como um processo automático nas políticas de desenvolvimento.

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