População de porcos em ilha remota evolui e se torna descoberta valiosa para a ciência moderna

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Porcos das Ilhas Auckland: de alimento para náufragos a valiosos para a ciência.

Em 1807, o capitão Abraham Bristow deixou porcos nas remotas Ilhas Auckland, com a intenção de fornecer alimento a futuros náufragos. O que se seguiu foi um isolamento que transformou esses animais em uma população única e adaptada às condições extremas do local.

Localizadas a cerca de 560 quilômetros ao sul da Nova Zelândia, as Ilhas Auckland são cercadas por mares agitados e enfrentam um clima severo, com frio intenso e ventos fortes. Bristow, ao soltar os porcos, visou garantir a sobrevivência de quem pudesse naufragar nas proximidades. Essa estratégia se mostrou útil quando, em 1866, os sobreviventes do naufrágio do General Grant conseguiram se alimentar dos porcos durante 18 meses de isolamento.

Um experimento que deu errado

A soltura inicial foi apenas o início de um processo que incluiu novas introduções de porcos ao longo do século 19. Sem predadores naturais e com a necessidade de sobrevivência, esses animais adaptaram-se ao ambiente, alimentando-se de raízes, larvas e vegetação. O resultado foi uma população de porcos com características únicas: pequenos, esguios e atléticos, com focinhos alongados e pelagem espessa.

Entretanto, a introdução desses porcos resultou em um impacto negativo no ecossistema local, que não estava preparado para a presença de grandes mamíferos. Os porcos começaram a prejudicar a vegetação, devorando raízes e atacando ninhos de aves marinhas, levando algumas espécies a buscar locais de reprodução mais inacessíveis.

Com o tempo, a Nova Zelândia reconheceu a ameaça que esses e outros animais introduzidos representavam para a restauração do arquipélago. O foco passou de salvar vidas para erradicar essas espécies invasoras.

Busca e captura

A Rare Breeds Conservation Society identificou a importância histórica e genética dos porcos de Auckland, considerando-os valiosos para a conservação. Em 1999, uma expedição foi organizada para capturar exemplares, utilizando cães para localizar os animais em um terreno desafiador.

Os esforços resultaram na captura de 17 porcos, incluindo várias fêmeas prenhas, que foram levadas para quarentena em Invercargill. Essa ação garantiu a preservação da população fora das ilhas, caso os exemplares selvagens se extinguissem.

O longo isolamento dos porcos os manteve livres de muitos agentes infecciosos comuns, tornando-os interessantes para a pesquisa biomédica. Embora não fossem completamente isentos de vírus, seu status sanitário controlado permitiu a realização de estudos sobre microrganismos antes da utilização de seus tecidos.

Células para tratar humanos

Os descendentes desses porcos passaram a ser utilizados em pesquisas de xenotransplante, que busca empregar células, tecidos ou órgãos de uma espécie em outra. Células das ilhotas pancreáticas dos porcos, responsáveis pela produção de insulina, foram testadas em ensaios clínicos com pacientes diabéticos tipo 1.

Em um dos estudos, 14 pacientes receberam células encapsuladas de doadores da ilha Auckland. Os resultados mostraram que não houve transmissão de vírus suínos aos receptores durante um ano de acompanhamento. Além disso, a pesquisa também investiga a viabilidade desses porcos para outros tipos de transplantes, embora ainda não existam tratamentos clínicos estabelecidos.

Atualmente, os porcos continuam a ser considerados uma ameaça ao ecossistema das Ilhas Auckland, e o Departamento de Conservação planeja erradicá-los para restaurar a região. Entretanto, fora das ilhas, seus descendentes são vistos como uma população valiosa devido à sua história, genética e potencial biomédico.

A solução pode não ser a conservação dos porcos em seu habitat original, mas sim a manutenção de populações em locais seguros. A ironia é que, em 1807, esses animais foram deixados como um recurso alimentar, e 192 anos depois, sua preservação se revela muito mais valiosa para a ciência.

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