Despejo de lixo em Nova York transforma área em um monstro três vezes maior que o Central Park após 53 anos
Transformação de aterro em parque em Staten Island redefine paisagem de Nova York.
Fresh Kills, um dos maiores aterros sanitários do mundo, foi transformado ao longo de 53 anos em um parque que promete ser quase três vezes maior que o Central Park. Este projeto visa selar as montanhas de lixo e criar um espaço verde para a comunidade.
Iniciado em 1948, Fresh Kills foi concebido como um aterro temporário em Staten Island, sob a direção do urbanista Robert Moses. Com o tempo, a solução temporária se tornou permanente, e, em 1955, o local já era considerado o maior aterro do mundo. Durante seu auge, de 1986 a 1987, recebia até 29 mil toneladas de lixo diariamente, acumulando aproximadamente 150 milhões de toneladas em uma área de 8,9 km².
O aterro operou até 2001, quando a última barcaça de lixo chegou. O acúmulo de resíduos resultou em quatro grandes montes, que, se não fossem selados, poderiam ter se tornado um dos pontos mais altos da costa leste dos Estados Unidos. Hoje, essas colinas artificiais escondem décadas de lixo sob uma nova paisagem.
A transformação do aterro em parque exigiu um complexo processo de isolamento das montanhas, que foram compactadas e moldadas. Um sistema de camadas foi implementado, incluindo solo nivelado, sistemas de ventilação de gases e barreiras impermeáveis, além de uma cobertura de solo para permitir o crescimento da vegetação. Uma infraestrutura invisível ainda opera sob a superfície, controlando a decomposição do lixo e monitorando a água subterrânea.
Fresh Kills também se tornou uma fonte de energia peculiar, gerando metano a partir da decomposição da matéria orgânica. Em 2018, cerca de 85 mil m³ de gás eram coletados diariamente, com uma parte sendo comercializada para uso em cozinhas e aquecimento em Staten Island. Este fenômeno destaca o paradoxo do aterro: mesmo após décadas, o lixo continua a ter um impacto químico na região.
Após os ataques de 11 de setembro, o aterro foi reaberto para receber 1,4 milhão de toneladas de material do Marco Zero. Durante dez meses, equipes trabalharam para examinar os escombros, e parte desse material foi depositada em uma área do aterro que permanecerá intocada, servindo como um memorial para os eventos traumáticos daquele dia.
À medida que a transformação avança, a vida selvagem está retornando a Fresh Kills. Aproximadamente metade da área agora é composta por pastagens, com espécies nativas reintroduzidas. O surgimento de aves raras, como a carriça-dos-juncos, destaca a recuperação ambiental do local.
Em outubro de 2023, 85 mil m² da antiga área do aterro foram abertos ao público, oferecendo trilhas e mirantes. O projeto de transformação está programado para ser concluído em 2036, resultando em um parque com instalações recreativas e áreas naturais.
Porém, a verdadeira história de Fresh Kills reside sob a superfície, onde quatro colinas de lixo, construídas ao longo de 53 anos, continuam a moldar a identidade de Nova York.