Uma Questão de Ética
Darryl Cunningham aborda desigualdade e poder em suas obras de quadrinhos.
O cartunista e escritor britânico Darryl Cunningham se destaca por sua habilidade em unir quadrinhos e não ficção, tratando de temas relevantes como saúde mental, ciência, economia e política. Seu trabalho é reconhecido por transformar questões complexas em narrativas visuais acessíveis, sempre com uma perspectiva moral que critica a desigualdade e a concentração de poder.
Com obras notáveis como “Psychiatric Tales” (2010), “Science Tales” (2013) e “Billionaires” (2019), Cunningham firmou-se como uma referência no campo dos quadrinhos jornalísticos contemporâneos. Em 2022, ele trouxe seu trabalho para o público brasileiro com “A Rússia de Putin: A Ascensão de Um Ditador”, que analisa a trajetória de Vladimir Putin e os mecanismos de poder associados ao seu governo.
Nesta entrevista, Cunningham reflete sobre como sua origem de classe influenciou sua visão de mundo, sua crítica à concentração de poder e os desafios de representar o presente em um cenário de rápidas mudanças.
“Sou contra bilionários porque, a partir de certo nível de riqueza, conseguem comprar meios de comunicação e influenciar a política de forma profunda. Podem, literalmente, reconstruir a realidade.”
O artista compartilha que cresceu em uma família de classe trabalhadora e vivenciou um contexto social e político conturbado na Grã-Bretanha. Essa experiência moldou sua consciência política desde a infância, levando-o a perceber a luta entre os interesses dos ricos e os da classe trabalhadora.
Sobre sua decisão de abordar questões sociais e políticas, Cunningham destaca que sempre teve uma perspectiva moral. Ele observa que a ascensão de partidos de extrema direita pós-Brexit e suas posturas anti-imigração e anti-direitos humanos vão contra seus princípios de decência.
Ele critica figuras como Jeff Bezos e Elon Musk, afirmando que, embora não seja contra a riqueza, a concentração extrema de poder torna esses indivíduos distantes da realidade da maioria. Essa desconexão é especialmente evidente entre os bilionários do Vale do Silício, que, segundo ele, vivem em uma bolha e veem as pessoas comuns como irrelevantes.
Em relação à Inteligência Artificial, Cunningham acredita que, embora a tecnologia tenha seu lugar, não irá substituir completamente o trabalho humano. Ele menciona que a IA pode ser vista como uma ferramenta, mas levanta preocupações sobre sua sustentabilidade e impacto ambiental a longo prazo.
“Pediram-me para escrever um livro sobre Donald Trump, mas eu não quis, porque já existem muitos. Então, decidi escrever sobre as figuras ao redor dele.”
O artista expressa sua preocupação com a originalidade na arte, afirmando que a IA, ao se basear em conteúdos de outros criadores, não pode produzir algo verdadeiramente original. Para ele, a verdadeira originalidade vem da experiência humana.
Cunningham revela que sua escolha pelos quadrinhos se deu por sua paixão pela forma desde a infância, que o ajudou a aprender a ler. Ele considera a combinação de escrita e ilustração uma extensão natural de suas habilidades.
Sobre a recepção de seu trabalho, ele observa que seus livros sobre saúde mental geram respostas pessoais, enquanto suas obras políticas são vistas como análises. Ele menciona que, curiosamente, não recebe muitas críticas, possivelmente porque aqueles que discordam não leem suas obras.
O processo de pesquisa de Cunningham envolve a leitura de biografias, reportagens e artigos científicos, garantindo a precisão dos fatos em suas narrativas. Seu novo projeto, que explora figuras ao redor de Donald Trump, reflete a complexidade e a rapidez das mudanças políticas contemporâneas, tornando o trabalho um desafio constante.
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma questão de moral’