Beber leite pode não ser tão saudável quanto se pensava, revela nova pesquisa sobre hábitos alimentares antigos
A evolução do consumo de leite ao longo dos séculos
O despertador toca às seis da manhã. Você levanta, se lava e vai para a cozinha preparar um café da manhã simples, como torradas com geleia e uma xícara de leite morno. Essa cena, que parece comum hoje, seria surpreendente para nossos tataravós, que viveram no início do século XIX. Naquela época, o consumo de leite de vaca era tão raro que a média per capita não ultrapassava 12 litros por ano. Em 2023, esse número atingiu cerca de 68 litros, embora o consumo não esteja em seu auge.
O que mudou para que o leite se tornasse um item essencial em nossas compras diárias? Quando ele passou a ser considerado um alimento básico?
Um pequeno copo de leite?
Ao refletirmos sobre a dieta de nossos antepassados, é difícil imaginar que alimentos como sushi ou pizza fizessem parte de sua alimentação. Mas e quanto ao leite de vaca?
Se retrocedêssemos a 1826 e oferecêssemos uma tigela de leite a um tataravô, ele provavelmente reagiria com desagrado. Historicamente, fora da região cantábrica, o consumo de leite era muito limitado. O leite era visto como um subproduto da criação de gado, que era utilizado principalmente para trabalho e para a produção de carne. O leite extraído era muitas vezes transformado em queijos e manteiga, e, em algumas ocasiões, até descartado.
A mudança foi realmente tão radical?
Sim, a transformação foi significativa. O aumento do consumo de leite na dieta espanhola começou no final do século XIX, com uma aceleração no início do século XX. Em 1900, o consumo per capita era de apenas 20 litros por ano, mas até a década de 1930 já havia saltado para 56 litros. Em apenas três décadas, o leite deixou de ser um produto marginal para se tornar uma parte integral da alimentação.
E fora da Espanha?
Globalmente, o leite de vaca se tornou um item essencial nas compras, especialmente nos Estados Unidos, onde sua popularidade cresceu ao longo do século XX. No século XIX, na Europa e nos EUA, o leite era frequentemente associado a crianças, com adultos preferindo queijo ou manteiga. O café da manhã, naquela época, não incluía leite, refletindo uma dieta que estava longe de ser diversificada.
O que dizem os dados?
Comparar dados de consumo ao longo de dois séculos é desafiador, mas os números são reveladores. Há 200 anos, o consumo per capita de leite de vaca na Espanha não ultrapassava 12 litros por ano. No final do século XIX, uma parte significativa da população rural ainda não conhecia o leite como alimento cotidiano. O consumo médio em 1865 era de 20,2 litros por pessoa, crescendo para 42,4 litros em 1925 e mantendo-se em torno de 65 litros na metade do século XX. Na década de 1980, a média ultrapassou 120 litros.
Atualmente, o leite continua sendo uma parte fundamental da dieta. Dados recentes indicam que, em março de 2026, o consumo de leite e produtos lácteos alcançou 392,3 milhões de quilos, com o leite líquido representando quase 65% desse total.
O que provocou essa mudança?
Dentre os fatores que impulsionaram a popularização do leite, destaca-se a mudança na percepção social, que passou a vê-lo como um alimento saudável. Essa transformação foi apoiada por campanhas de agências governamentais e pela comunidade médica. Além disso, a evolução da sociedade, suas necessidades alimentares e a capacidade de garantir um consumo seguro foram cruciais para o aumento do consumo de leite.
Havia outros fatores envolvidos?
Sim, a industrialização teve um papel vital na ampliação do consumo de leite, alterando tanto a produção quanto os hábitos alimentares. A crise agrária do final do século XIX fez com que muitos agricultores se voltassem para a pecuária, enquanto a especialização na criação de vacas leiteiras e os avanços nas comunicações facilitaram a distribuição do leite nas cidades.
O cenário mudou tanto assim?
Após a Guerra Civil e o período pós-guerra, a prioridade da alimentação mudou de evitar a fome para buscar uma dieta mais variada. Nesse contexto, o leite se