Superstição no Japão classifica cidadãos com base no tipo sanguíneo
Japoneses têm uma obsessão peculiar com o tipo sanguíneo e suas implicações pessoais.
Muitas pessoas costumam dizer que não acreditam em horóscopos, mas ainda assim se identificam com as descrições que esses oferecem. Essa é uma realidade comum, especialmente quando se trata de signos do zodíaco. Contudo, o Japão apresenta uma singularidade que ultrapassa essas crenças.
Em diversas experiências profissionais, é comum encontrar alguém que consulte previsões astrológicas nos jornais. No entanto, no Japão, a obsessão vai além, com uma prática que se estabeleceu há quase um século: a classificação das pessoas com base em seu grupo sanguíneo.
Este país, conhecido por seu desenvolvimento intelectual e tecnológico, atribui grande importância ao tipo sanguíneo, que pode influenciar desde relações pessoais até oportunidades de trabalho. A ideia de que o sangue define características pessoais é tão arraigada que pode resultar em discriminação e preconceito.
A relação do Japão com o sangue remonta a milênios, mas ganhou destaque na década de 1920. O professor Takeji Furukawa publicou um artigo que, embora carecesse de fundamentação científica, influenciou o exército japonês a desenvolver estudos sobre o “soldado ideal” em termos sanguíneos.
Furukawa argumentava que a mistura de sangue entre japoneses e taiwaneses, que eram colonizados, poderia reduzir a resistência à ocupação. Essa visão distorcida levou a categorizações que, embora infundadas, se tornaram populares.
Na década de 1930, a teoria de Furukawa perdeu força, mas a publicação de Masahiko Nomi em 1971 revitalizou o interesse. Seus livros, apesar das críticas, foram bem recebidos pelo público, que começou a adotar as categorias sanguíneas como uma forma de entender a personalidade.
A obsessão sanguínea
Desde o final da década de 1970, previsões baseadas no tipo sanguíneo se tornaram comuns em programas matinais e revistas. Celebridades frequentemente divulgam seu tipo sanguíneo, e até mesmo figurinhas de jogadores de beisebol incluem essa informação.
A popularidade do tema não se limita a previsões. Novelas e animes exploram a incompatibilidade entre casais de diferentes grupos sanguíneos, e há máquinas que vendem produtos de acordo com essas categorias. As agências de casamento também consideram o tipo sanguíneo na seleção de parceiros.
Videogames e redes sociais frequentemente incorporam o tipo sanguíneo na construção de personagens e perfis, refletindo a influência dessa crença na cultura japonesa. Pesquisadores descobriram que esses estereótipos não apenas moldam a percepção, mas também influenciam a formação da personalidade dos indivíduos.
Embora a ciência não suporte a ideia de que o tipo sanguíneo determine a personalidade, a crença persiste. Um estudo revelou que 9% dos japoneses acreditam firmemente nessa relação, enquanto quase metade considera que há alguma conexão.
Um dado interessante é que cerca de 90% da população conhece seu tipo sanguíneo e o considera em suas interações. Exemplos de figuras públicas que atribuem suas ações ao tipo sanguíneo são comuns, como o caso de um ministro que se desculpou por suas declarações inadequadas, alegando que seu sangue tipo B influenciou seu comportamento.
O tipo sanguíneo também é considerado em contextos mais sérios, como em creches que segregam crianças de acordo com essa característica, o que pode levar a práticas de bullying. Tais ações são referidas no Japão como “bura-hara”, que descreve o assédio baseado no tipo sanguíneo.
Desde a década de 1990, pessoas com tipos sanguíneos B e AB enfrentam discriminação, com relatos de empregadores que exigem essa informação durante processos seletivos. Embora não haja registros de processos judiciais por discriminação sanguínea, a cultura local sugere que isso pode influenciar decisões cotidianas.
Enquanto isso, uma nova tendência está surgindo na Ásia: o teste MBTI, que se tornou popular entre os jovens sul-coreanos, superando o interesse pelo tipo sanguíneo. No Japão, essa moda também está crescendo, refletindo mudanças nas preferências culturais.
Assim, a relação entre sangue e personalidade continua a ser um tema de debate, mostrando como crenças podem influenciar a vida cotidiana de uma sociedade, mesmo em um país tão avançado como o Japão