Engenheiro espanhol refloresta 5.000 hectares da Sierra Espuña com espingarda e transforma área em grande Parque Regional após 135 anos
Reflorestamento na Serra Espuña: um legado de 135 anos de transformação ambiental.
Mais de um século após o início de um ambicioso projeto de reflorestamento, a Serra Espuña, na Espanha, se transformou em um exemplo de recuperação ambiental. O engenheiro florestal Ricardo Codorníu, em 1889, iniciou essa jornada ao observar a devastação da vegetação local.
Na sua primeira expedição, Codorníu constatou a ausência de pinheiros e azinheiras, o que o levou a concluir que era necessário reflorestar a região. Hoje, a Serra Espuña abriga quase mil espécies vegetais, representando mais de um terço da flora local, resultado de um trabalho meticuloso que envolveu técnicas inovadoras para a época.
A devastação da área foi resultado de décadas de desmatamento, pastoreio e exploração de madeira, que comprometeram a vegetação e levaram a deslizamentos de terra. A tragédia da enchente de Santa Teresa, que resultou na morte de centenas de pessoas em 1879, motivou a criação da Comissão de Reflorestamento da Bacia do Segura em 1888, visando restaurar a vegetação e prevenir novos desastres.
A Comissão, composta por engenheiros como José Musso, Codorníu e Juan Ángel de Madariaga, iniciou o reflorestamento sob a liderança de Musso. Codorníu assumiu a direção em 1895, e sob sua supervisão, mais de 3.256 hectares foram reflorestados, com a plantação de 4,3 milhões de árvores, um esforço que culminou na designação da área como Sítio Natural de Interesse Nacional em 1931.
Os primeiros passos do reflorestamento não envolveram o plantio imediato de árvores, mas sim a construção de diques e estradas. Foram necessários 240 quilômetros de estradas e 144 quilômetros de diques para preparar o terreno. Codorníu enfatizou a importância de criar solo fértil, utilizando técnicas de irrigação que garantiram o crescimento das mudas.
Nos primeiros anos, o viveiro central de Levante produziu milhões de mudas, mas o sucesso do reflorestamento se deveu a um planejamento cuidadoso, que levou em conta as características do solo e do clima. A estratégia de plantio foi complementada por métodos inovadores, como o uso de espingardas para dispersar sementes em áreas de difícil acesso.
Em 1978, a Serra Espuña foi oficialmente declarada Parque Natural, e em 1992 tornou-se um Parque Regional com 17.804 hectares, expandindo a proteção ambiental para áreas adjacentes. A criação do parque garantiu a preservação da biodiversidade e a proteção de habitats essenciais, além de promover o ecoturismo na região.
Um dos símbolos da Serra Espuña é o arruí, introduzido na década de 1970. A presença de diversas espécies de aves, como o bufo-real e a águia-real, levou à classificação da área como Zona de Proteção Especial para Aves, destacando a importância da Serra Espuña como refúgio para a vida selvagem.
Em 2017, a Volta à Região de Múrcia passou pela Serra Espuña, evidenciando a relevância da região não apenas como um espaço natural, mas também como um local de eventos esportivos. A infraestrutura da área, incluindo estradas e trilhas, é utilizada tanto por ciclistas quanto por visitantes em busca de contato com a natureza.
O legado de Codorníu se estendeu além de seu tempo, influenciando políticas de reflorestamento em toda a Espanha. Ele também contribuiu para a Festa da Árvore, um evento que celebra a importância da preservação ambiental. O centro de visitantes da Serra Espuña e o viveiro de Huerta Espuña continuam a honrar seu trabalho e dedicação.
Embora o cenário tenha mudado, os desafios persistem. Codorníu previu que a nova floresta aumentaria a vazão das nascentes e geraria empregos para os trabalhadores rurais. Ele faleceu em 1923, sem ver o resultado final de seus esforços, mas seu impacto é visível até hoje. Atualmente, a região enfrenta novos desafios, como incêndios florestais, que ameaçam a biodiversidade e a recuperação ambiental.