Talento em IA no Brasil: carreira em Y, altos salários e o risco de bolha

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O mercado brasileiro se adapta à demanda por profissionais de inteligência artificial.

Toda época tem sua figura em destaque no mercado de trabalho. Após os cientistas de dados e especialistas em cibersegurança, o foco agora recai sobre os profissionais de inteligência artificial (IA). As empresas brasileiras estão percebendo que, para atrair esses talentos, é necessário ir além da simples abertura de vagas; é fundamental reestruturar carreiras e pacotes de remuneração.

Atualmente, as empresas estão em um processo de diagnóstico, buscando identificar quais funções relacionadas à IA serão imprescindíveis. Isso inclui não apenas os desenvolvedores, mas também a análise da disponibilidade de profissionais qualificados internamente e a adequação dos salários. Um gerente de projetos focado em IA, por exemplo, deve possuir habilidades distintas em comparação ao gestor de projetos tradicional de TI, o que levanta a questão sobre a necessidade de uma remuneração diferenciada.

Em comparação com o cenário internacional, o Brasil ainda está em uma posição inferior. O Global AI Jobs Barometer 2026, que analisou mais de 1 bilhão de anúncios de emprego em 27 países, revelou que o prêmio salarial médio para profissionais com habilidades em IA aumentou para 62%, em comparação a 57% no ano anterior. Além disso, a simples menção de conhecimento em IA nas descrições de vagas está associada a salários 15% mais altos. Nos Estados Unidos, há casos de pesquisadores seniores recebendo até US$ 700 mil por ano, sem a necessidade de liderar equipes.

No Brasil, a realidade é diferente. Embora ainda não se encontre um especialista em IA recebendo salários equivalentes a um diretor, este é um momento de transição. O país não está na liderança global em IA, mas as expectativas são de que essa curva de crescimento se acentue nos próximos 12 a 24 meses, dependendo da evolução econômica e das taxas de juros, que ainda limitam investimentos mais ousados.

A consultoria sugere a implementação de uma carreira em Y, onde o especialista pode ter uma remuneração equivalente à de um gerente ou diretor, sem a necessidade de gestão de equipes. Nos Estados Unidos, é cada vez mais comum que um técnico sênior em IA receba mais do que seu gestor. Outro aspecto importante é a necessidade de um salário fixo, visto que profissionais mais técnicos tendem a ser avessos a riscos. A flexibilidade no trabalho também se mostra essencial para atrair esses talentos.

Após a atração de talentos, o desafio é engajá-los. Planos de retenção são cruciais, especialmente em tecnologia, onde a rotatividade é baixa. Mecanismos simples, como bônus de permanência, podem ser eficazes. O custo de substituir um profissional qualificado frequentemente supera o valor de um bônus de retenção.

Em um mercado competitivo, onde empresas estrangeiras contratam brasileiros em moedas fortes, a recomendação é não entrar em uma disputa puramente salarial. O diferencial das empresas locais deve ser o oferecimento de um ambiente que promova pertencimento, desenvolvimento e oportunidades de crescimento. Isso é especialmente relevante para profissionais mais jovens, que buscam ascensão na carreira, enquanto os mais experientes podem priorizar remuneração e flexibilidade.

Paradoxo do piloto

Entretanto, existe um efeito colateral que a empolgação em torno da IA pode ocultar. O aumento dos salários no topo da hierarquia pode reduzir a necessidade de profissionais nas posições iniciais, inclusive na área de TI, onde o desenvolvimento de aplicativos exige hoje muito menos tempo de trabalho do que no passado.

As oportunidades para iniciantes estão se tornando cada vez mais escassas em diversas áreas, o que levanta um problema de formação. As empresas precisarão de profissionais experientes para gerenciar a IA, mas como formar novos talentos se cada vez menos iniciantes estão sendo contratados?

Outro risco a ser considerado é a formação de uma bolha. A busca por profissionais de IA já atrai pessoas de diversas áreas, incluindo recursos humanos, e valoriza também os usuários avançados, que não desenvolvem a tecnologia, mas a aplicam para otimizar processos. Assim, a oferta de profissionais tende a aumentar, mas a duração desse fenômeno é incerta.

O conselho para as empresas é garantir uma remuneração adequada para reter talentos estratégicos, sem descolar excessivamente dos salários do restante da equipe. Caso contrário, quando o mercado se reequilibrar, as empresas poderão enfrentar uma estrutura de custos insustentável.

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