Cientistas recriam em 3D o rosto do Homo sapiens mais antigo do mundo, com 315.000 anos, que poderia passar despercebido na multidão
Reconstrução digital revela o rosto do Homo sapiens mais antigo conhecido.
Imagine um homem vestido com roupas modernas, caminhando por uma metrópole contemporânea. A princípio, ele passaria despercebido, mas uma observação mais atenta revelaria traços robustos, como arcadas superciliares proeminentes, nariz largo e uma mandíbula levemente projetada.
Esse homem, no entanto, não pertence ao nosso século; ele viveu no Norte da África há aproximadamente 315 mil anos e é o representante mais antigo conhecido do Homo sapiens.
Recentemente, o rosto desse ancestral foi revelado por meio de uma impressionante reconstrução digital em 3D, fruto de uma colaboração internacional que incluiu uma contribuição significativa de especialistas italianos.
O Homo sapiens de Jebel Irhoud: a história de um crânio que quebrou recordes
A história desse rosto extraordinário começa em 1961, no sítio de mineração de Jebel Irhoud, no oeste do Marrocos, onde um trabalhador encontrou um crânio fossilizado. Por décadas, acreditou-se que se tratava de um “Neandertal africano” que teria vivido há cerca de 40 mil anos.
Em 2017, novas escavações e métodos avançados de datação revelaram que os vestígios pertenciam ao Homo sapiens, recuando sua idade para aproximadamente 315 mil anos atrás, com uma margem de erro de 34 mil anos.
Essa descoberta antecipou o surgimento documentado da nossa espécie em mais de 100 mil anos, provando que os sapiens habitavam a África muito antes do que se pensava, utilizando ferramentas de pedra, dominando o fogo e caçando gazelas e zebras.
Reconstrução facial 3D: o método ítalo-brasileiro
Uma equipe multidisciplinar, liderada pelo renomado designer brasileiro e especialista em reconstrução forense Cícero Moraes, assumiu a tarefa de dar forma à história. O professor Francesco Maria Galassi, anatomista da Universidade de Pavia, desempenhou um papel fundamental na conceituação e validação científica do projeto.
A equipe contou com especialistas da Universidade Flinders, na Austrália, e utilizou metodologias previamente aplicadas a espécimes de hominídeos em exibição no Museu da Natureza e da Humanidade, em Pádua.
O processo, utilizando softwares de código aberto, começou com a fotogrametria para criar um modelo tridimensional preciso do crânio, escaneado pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig.
Para modelar os tecidos moles, os pesquisadores adaptaram digitalmente uma tomografia computadorizada de um adulto moderno à anatomia do crânio antigo, calibrando a espessura dos músculos e da pele com base em dados biométricos de populações africanas contemporâneas.
Evolução cerebral e o surgimento dos seres humanos modernos
Os pesquisadores produziram duas versões do rosto: uma em tons de cinza, para destacar a anatomia muscular e esquelética, e um busto colorido, apresentando pele escura, cabelo e barba. Essas características são plausíveis para um indivíduo que viveu no Norte da África há 315 mil anos.
Embora o crânio não forneça dados de DNA para determinar a cor exata da pele ou dos olhos, as características apresentadas são consistentes com o contexto da época.
A descoberta mais surpreendente do estudo diz respeito ao volume craniano, calculado em 1.230 centímetros cúbicos, um valor notavelmente próximo à média observada em homens adultos modernos (1.234 cm³).
Isso indica que, ao longo de mais de 300 mil anos, o tamanho do nosso cérebro permaneceu praticamente inalterado, e que o rosto humano adquiriu sua forma “moderna” mesmo antes da evolução interna do cérebro estar totalmente concluída.
“É sempre uma experiência fantástica ver o rosto totalmente reconstruído e observar tanto as semelhanças quanto as diferenças em relação à população atual”, comentou o professor Galassi. “É impossível não se perguntar como era o cotidiano dessas pessoas, como resolviam problemas e o que passava por suas mentes.”