Eleições Marcam o Fim do Marketing Político
Reflexões sobre a evolução do marketing político nas campanhas eleitorais contemporâneas.
Por quase uma década, a disciplina de “Marketing Político” foi lecionada em uma renomada instituição de ensino superior em Porto Alegre, atraindo estudantes de diversas áreas, como Publicidade, Jornalismo, Administração e Direito. Essa diversidade enriqueceu as discussões, pois o marketing político transcende a mera propaganda, envolvendo uma compreensão profunda da sociedade, do comportamento humano e da política. A premissa fundamental sempre foi que, para comunicar efetivamente, é necessário entender o eleitor.
Além da experiência acadêmica, a participação em campanhas eleitorais como profissional de comunicação trouxe a convicção de que a transparência e a objetividade são essenciais para conquistar a confiança do eleitor e, consequentemente, seu voto.
Philip Kotler, um dos grandes nomes do marketing, enfatiza a importância de conhecer as necessidades do público. Al Ries e Jack Trout destacam o posicionamento como central na estratégia. Recentemente, no Brasil, o cientista político Felipe Nunes tem estudado a relação entre comportamento eleitoral e mobilização nas redes sociais, utilizando o Índice de Popularidade Digital (IPD) para medir a presença e o engajamento no ambiente digital, embora essa métrica não reflita diretamente a intenção de voto.
Em um artigo anterior, foi abordada a falta de estratégia em muitas campanhas, alertando que engajamento nas redes sociais não é sinônimo de voto. Quatro anos depois, a situação se agravou, com uma evidente negligência em relação ao marketing político.
A eleição de 2026 evidenciou uma transformação, onde a lógica dos algoritmos dominou a estratégia política. O foco passou de um posicionamento sólido para a viralização de conteúdos, com programas substituídos por cortes de vídeo e argumentações perdendo espaço para memes. A vitória foi creditada à mobilização intensa de um político que se tornou um influenciador digital, gerando um estado de alerta constante entre seus seguidores.
Entretanto, o problema não reside nas redes sociais ou na tecnologia, mas na confusão entre ferramentas de comunicação e estratégia. O marketing político sempre buscou responder perguntas cruciais sobre o candidato e suas propostas. Atualmente, muitas dessas questões foram reduzidas a uma simples dúvida: o que vamos postar agora?
Os algoritmos operam de maneira diferente do marketing tradicional, onde a coerência e a consistência são fundamentais. As plataformas digitais competem pela atenção do público, e, nesse contexto, a indignação pode ter mais impacto do que argumentos racionais, com mensagens agressivas alcançando milhões antes que esclarecimentos semelhantes tenham a mesma visibilidade.
Esse cenário favorece a disseminação de fake news, amplificadas pela inteligência artificial, que permite a criação e manipulação de conteúdos com grande verossimilhança. As campanhas nas redes sociais, repletas de vídeos e memes, muitas vezes falham em responder a uma pergunta básica: o que o candidato realmente propõe? Além disso, a indução algorítmica das grandes plataformas transforma as ações em uma verdadeira roleta russa.
A pesquisa sempre foi uma lição fundamental no marketing político, mas hoje, apesar de termos acesso a muitos dados sobre os eleitores, é crucial lembrar que conhecer dados não é o mesmo que conhecer pessoas. A distinção entre dados e insights, entre seguidores e eleitores, é essencial para uma comunicação eficaz.
Defender uma volta às campanhas do passado seria ingênuo, visto que as redes sociais e a inteligência artificial são partes integrantes do cenário atual. O desafio está em não perder de vista os fundamentos do marketing político em meio a inovações tecnológicas.
Por fim, é importante fazer um alerta sobre a instabilidade nas relações sociais no Brasil, que tem raízes na irresponsabilidade de alguns “estrategistas” de campanhas, que, ao se apoiarem nas facilidades da inteligência artificial, têm contribuído para a deterioração do marketing político. A superficialidade de conteúdos e a falta de autenticidade são preocupantes.
Em tempo: reflexões sobre a complexidade do cenário político atual são necessárias para entender as nuances das campanhas eleitorais.
Em tempo: a experiência como eleitor também traz emoções intensas durante as campanhas.