A Crescente Crise dos Navios Abandonados no Mar
Aumento alarmante no abandono de petroleiros e embarcações comerciais impacta marinheiros ao redor do mundo.
Nos últimos meses, o número de petroleiros e outras embarcações comerciais abandonadas por seus proprietários aumentou significativamente em várias partes do mundo. Esse fenômeno levanta questões sobre suas causas e os impactos enfrentados pelos marinheiros mercantes que ficam à deriva.
Um marinheiro, que usou o nome fictício Ivan, compartilhou sua experiência a partir de um petroleiro abandonado nas proximidades da China. Ele, que ocupa uma posição sênior de convés, relatou a escassez de alimentos essenciais, o que comprometeu a saúde da tripulação e as condições a bordo.
“Houve falta de carne, grãos, peixe — coisas simples para a sobrevivência”, afirmou Ivan, destacando a frustração e o desespero da equipe.
A situação se agravou, com a tripulação lutando para sobreviver a cada dia. O navio, que transportava cerca de 750 mil barris de petróleo bruto russo, foi considerado abandonado em dezembro pela International Transport Workers’ Federation (ITF), após relatos de meses sem pagamento de salários.
O navio permanece em águas internacionais, e a China, aparentemente, não está disposta a permitir sua entrada em portos, complicando ainda mais a situação. A ITF interveio para garantir o pagamento dos salários atrasados e organizar o envio de alimentos e água potável para a embarcação.
Embora alguns membros da tripulação tenham sido repatriados, muitos, como Ivan, continuam a bordo, enfrentando incertezas e riscos crescentes.
Dados da ITF revelam que o abandono de navios aumentou drasticamente nos últimos anos. Em 2016, apenas 20 embarcações foram abandonadas, enquanto em 2025 esse número subiu para 410, afetando mais de 6.200 marinheiros. Este crescimento pode ser atribuído à instabilidade geopolítica e às interrupções nas cadeias de suprimento, exacerbadas pela pandemia de covid-19.
Outro fator relevante é o surgimento das chamadas “frotas fantasmas”, que são embarcações frequentemente de propriedade obscura e registradas em países com fiscalização mínima. Essas embarcações operam fora do radar para ajudar países como Rússia e Irã a exportar petróleo em violação a sanções internacionais.
Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o país enfrentou sanções que limitaram suas vendas de petróleo, mas ainda encontrou compradores dispostos a pagar preços mais altos. A utilização de bandeiras de conveniência, que permitem que os proprietários contornem regulamentações, é uma prática comum entre esses navios.
Em 2025, 82% dos navios abandonados pertenciam a frotas que operam sob bandeiras de conveniência. Essas embarcações frequentemente enfrentam condições precárias e são alvo de abandono devido à falta de responsabilidade dos proprietários.
O abandono é definido pela Organização Marítima Internacional (IMO) quando um armador deixa de arcar com os custos de repatriação ou rompe unilateralmente o vínculo com o marinheiro, incluindo o não pagamento de salários por mais de dois meses.
O secretário-geral da ITF, Stephen Cotton, enfatizou que o abandono não é um acidente, e muitos marinheiros desconhecem os desafios que enfrentarão ao assinar contratos de trabalho. A situação se agrava ainda mais para aqueles que navegam sob bandeiras de conveniência, que muitas vezes não oferecem garantias de segurança e suporte.
Em 2025, os marinheiros indianos foram os mais afetados pelo abandono, seguidos por filipinos e sírios. O governo da Índia tomou medidas para proteger seus trabalhadores, incluindo a proibição de embarcações estrangeiras com histórico de abandono.
Mark Dickinson, secretário-geral do Nautilus International, criticou a falta de responsabilidade dos Estados que oferecem bandeiras de conveniência, afirmando que é essencial estabelecer vínculos genuínos entre os proprietários e os países sob os quais os navios são registrados.
O navio de Ivan estava registrado sob uma bandeira gambiana falsa, e agora passa por uma investigação formal após ser aceito sob a bandeira de outro país africano. Ivan expressou sua intenção de ser mais cauteloso ao escolher futuros empregos no setor marítimo.
“Com certeza vou ter uma
