Acordar às 3 da manhã é comum: sono contínuo é uma inovação recente na história humana
Entender o sono bifásico pode transformar nossa relação com as noites de descanso.
O sono é cercado por mitos que influenciam nossas percepções e hábitos. Muitas pessoas acreditam que adormecer rapidamente é um sinal de boa saúde, que é necessário dormir oito horas ininterruptas ou que o sono contínuo durante a noite é o ideal.
Contudo, essa última crença é um equívoco. Estudos sobre a ciência do sono revelam que a ideia de um sono ininterrupto de oito horas é uma construção recente na história da humanidade. Compreender essa realidade pode mudar a maneira como lidamos com nosso descanso noturno.
Historicamente, até há dois séculos, as pessoas não dormiam por longos períodos sem interrupções. Elas costumavam se deitar ao anoitecer, dormir por cerca de quatro horas e acordar brevemente antes de retornar ao sono até o amanhecer. Esse padrão é conhecido como sono bifásico.
O sono bifásico é um fenômeno amplamente documentado, com referências que remontam a textos antigos. Virgílio, em sua obra “Eneida”, menciona o início do sono para os mortais cansados. Roger Ekirch, um pesquisador que se dedicou a estudar o sono ao longo de 16 anos, compilou mais de 500 documentos que corroboram essa prática.
A transição para o sono contínuo está ligada ao advento da luz artificial. Desde o século 18, com a introdução de lâmpadas a óleo, gás e eletricidade, as noites passaram a ser vistas como um tempo produtivo. A luz artificial interfere na produção de melatonina, um hormônio essencial para regular o sono, e altera nossos ritmos circadianos, dificultando o adormecer e a manutenção do sono.
A Revolução Industrial acentuou essa mudança, impondo horários rígidos que concentraram o descanso em um único bloco. Assim, práticas que foram moldadas ao longo da evolução humana foram transformadas pela vida acelerada da produção moderna.
Quando se simula um ambiente sem luz, como nas longas noites de inverno, as pessoas tendem a retornar ao sono bifásico, com períodos de vigília natural. Um estudo realizado em uma comunidade agrícola sem eletricidade demonstrou esse padrão, reforçando a ideia de que nosso corpo se adapta às condições ambientais.
A luz não apenas influencia o sono, mas também nossa percepção do tempo. Pesquisas indicam que em ambientes com baixa iluminação, a sensação de passagem do tempo é mais lenta, especialmente em indivíduos com humor deprimido. Isso pode explicar a sensação de que o inverno é interminável e por que o tempo parece se arrastar ao acordar no meio da noite.
Quando ocorre um despertar noturno, é fundamental como reagimos a isso. A Terapia Cognitivo-Comportamental para a Insônia sugere que, se você não conseguir voltar a dormir em 20 minutos, deve levantar-se e realizar uma atividade tranquila sob luz suave, como ler, retornando à cama quando sentir sono novamente. Além disso, evitar olhar para o relógio pode reduzir a ansiedade relacionada ao tempo.
É importante perceber que esse despertar não deve ser encarado como um problema, mas sim como um reflexo de um comportamento humano natural. Aceitar essa vigília, em vez de lutar contra ela, pode ser a chave para retomar o sono de maneira mais eficaz.
