Policiais utilizavam Coaf em extorsões, revela investigação de gaveta
Relatório financeiro se torna ferramenta de extorsão em delegacia de São Paulo
Investigações do Ministério Público e da Polícia Federal em São Paulo revelam que um relatório financeiro, destinado ao rastreamento de dinheiro suspeito, foi utilizado como instrumento de pressão e extorsão por policiais civis.
O delegado João Eduardo da Silva e o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz, ambos do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania, são os principais envolvidos no caso. Eles teriam acessado informações sigilosas dos Relatórios de Informação Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para constranger pessoas ligadas a investigados, exigindo pagamentos em troca de não prosseguir com investigações.
Os dois estão entre os dez suspeitos que tiveram prisão preventiva decretada em uma operação conjunta da Polícia Federal, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado e da Corregedoria da Polícia Civil. A defesa deles ainda não se manifestou.
A operação foi desencadeada a partir de uma investigação da Polícia Federal, que expôs um cenário em que agentes da lei, responsáveis por conduzir apurações, usaram suas atribuições para implementar um esquema criminoso de extorsão.
O ponto de partida
Os RIFs do Coaf, que reúnem movimentações financeiras atípicas, foram a base do esquema. Em investigações formais, os delegados podem solicitar esses relatórios, que são considerados uma ferramenta legítima para apurações, desde que vinculadas a investigações autorizadas.
No entanto, a investigação atual levanta suspeitas de que os policiais teriam utilizado essas informações para fins ilícitos. A partir de um RIF, eles identificavam pessoas que tinham relações financeiras com o investigado principal e as tratavam como alvos.
A partir desse ponto, as investigações revelaram uma segunda etapa do esquema.
“Investigação de gaveta”
Os policiais civis emitiam intimações formais, convocando as pessoas para prestar esclarecimentos. Embora à primeira vista parecesse um procedimento legal, muitas dessas diligências não eram formalizadas nos autos do inquérito, caracterizando uma “investigação de gaveta”.
Com acesso a dados financeiros, os policiais chamavam as pessoas à delegacia sob a justificativa de esclarecer movimentações suspeitas, mas na prática, utilizavam isso para pressionar os convocados. Qualquer vínculo financeiro com o investigado principal transformava essas pessoas em suspeitas.
Diálogos interceptados por investigadores federais revelaram a pressão exercida sobre essas pessoas, que muitas vezes não eram alvo das investigações originais.
“Vou puxar o seu RIF também. Quero ver sua vida financeira dos últimos anos.”
Essa frase exemplifica a pressão que os convocados enfrentavam.
Conversas revelam tentativa de cobrança
Mensagens interceptadas mostram como o esquema operava. Em um diálogo, um advogado menciona o delegado em tom amigável, referindo-se a ele como “parceiraço”. O contexto envolve negociações relacionadas a um caso em que um relatório financeiro indicou movimentações suspeitas de cerca de R$ 33 milhões.
Nos bastidores, os policiais discutiam a possibilidade de exigir até R$ 700 mil para “resolver” a situação.
Cobrança alta e acordo baixo
Os áudios indicam que o valor da cobrança diminuiu ao longo das negociações, caindo para R$ 100 mil, possivelmente devido à relação próxima entre o advogado e o delegado. A menção ao delegado como “parceiraço” reforça essa conexão.
A investigação considera esse episódio como evidência de que a estrutura da delegacia foi utilizada para criar um ambiente de intimidação.
Como investigação começou
A investigação ganhou destaque após a análise de celulares apreendidos na Operação Recidere, que visava desarticular um grupo de doleiros envolvidos em operações ilegais de envio de dinheiro ao exterior.
Durante essa operação, foram encontradas conversas que sugeriam pagamentos e tratativas envolvendo policiais civis. Isso levou a uma nova linha de investigação, onde delegados e investigadores mencionados nas mensagens passaram a ser analisados pelos órgãos de controle da polícia.