Professor do MIT alerta para riscos de atrofia cerebral em debate sobre efeitos da IA no SXSW
A inteligência artificial pode afetar a evolução das capacidades cognitivas humanas.
A ascensão da inteligência artificial generativa (GenAI) já está mudando a forma como trabalhamos, pesquisamos e nos comunicamos. Recentemente, durante o SXSW 2026, em Austin, nos Estados Unidos, um debate provocou reflexões sobre um tema crucial: a possível atrofia das capacidades cognitivas humanas ao delegar tarefas às máquinas.
O professor Sanjay Sarma, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), destacou que a dependência crescente da inteligência artificial pode enfraquecer habilidades mentais essenciais. Ele alertou que, se a aprendizagem não for mantida ativa, a inteligência artificial pode se tornar uma “muleta” permanente, levando à perda de capacidades cognitivas fundamentais.
O painel reuniu especialistas, formuladores de políticas públicas e estudantes para discutir como aproveitar o potencial da tecnologia sem comprometer habilidades humanas como pensamento crítico e criatividade. A discussão foi estimulada por uma analogia curiosa sobre o tunicado, um pequeno animal marinho que, ao se fixar em um lugar, digere seu próprio cérebro, ilustrando o risco de se tornar dependente da tecnologia.
Essa reflexão levou à análise da “terceirização cognitiva”, onde tarefas que exigiam esforço mental são agora realizadas por sistemas automatizados. Sarma observou que a dependência de tecnologias cotidianas, como o Google Maps, já está afetando nosso senso de direção, tornando-nos incapazes de distinguir orientações básicas.
O conceito neurocientífico de “use ou perca” indica que habilidades não praticadas tendem a se enfraquecer. Assim, surge a preocupação sobre até que ponto continuaremos a desenvolver as capacidades mentais que sustentam atividades que agora são realizadas por IA.
“Criamos escolas para formar robôs e os robôs chegaram”
Sarma também criticou o modelo educacional tradicional, que se concentra em conhecimento explícito e regras, enquanto grande parte do conhecimento humano é tácita, envolvendo intuição e criatividade. Ele argumentou que o sistema educacional atual prepara os estudantes para tarefas que a inteligência artificial executa com mais eficiência.
Estudantes já sentem os efeitos
Estudantes, como Olivia Joseph, do MIT, relataram mudanças significativas em sua experiência acadêmica com a popularização de ferramentas de IA. Inicialmente empolgante, a dependência dessas tecnologias levou a uma perda de habilidades fundamentais, como a capacidade de resolver problemas de programação sem assistência.
Além disso, Olivia observou uma homogeneização na escrita dos alunos, resultante do uso das mesmas ferramentas, o que pode impactar a diversidade de pensamento e expressão. A interação social também foi afetada, com muitos estudantes optando por resolver problemas sozinhos, em vez de colaborar com colegas.
Crise maior na educação?
Chris Gabrieli, professor da Harvard Graduate School of Education, apontou que a transformação provocada pela IA reflete uma crise estrutural na educação. Ele destacou três pressões enfrentadas pelas universidades: a obsolescência das avaliações tradicionais, a queda na confiança pública no ensino superior e as mudanças no mercado de trabalho que exigem novas habilidades.
Gabrieli citou que as instituições de ensino superior nos Estados Unidos operam com apenas 73% de ocupação, um sinal de que menos estudantes estão escolhendo a universidade. A questão central é o que precisamos aprender em um mundo onde máquinas também pensam.
Nem tudo é ruim
Apesar das preocupações, os especialistas concordaram que a inteligência artificial pode ser uma ferramenta poderosa no aprendizado, se usada de forma consciente. Gabrieli começou a integrar a IA em suas aulas, incentivando os alunos a analisar respostas geradas pelo ChatGPT, promovendo o pensamento crítico.
Bolha da IA?
Durante o debate, Sarma levantou a possibilidade de que o entusiasmo atual pela inteligência artificial possa criar uma nova bolha tecnológica. Ele alertou sobre os limites econômicos e energéticos da corrida por infraestrutura de IA, sugerindo que a tecnologia ainda precisa evoluir em eficiência energética antes de justificar investimentos massivos.
Para Sarma, o foco deve ser identificar e preservar as capacidades humanas que são fundamentais. Ele propôs que a IA se encarregue do “pensamento rápido”, enquanto os humanos devem se concentrar no “pensamento lento”, promovendo um equilíbrio saudável entre tecnologia e habilidades cognitivas.
