Expodireto sedia mobilização em resposta à crise do leite
Expodireto Cotrijal se torna palco de mobilização pela cadeia produtiva do leite no Rio Grande do Sul.
A Expodireto Cotrijal, realizada em Não-Me-Toque, transformou-se em um espaço de resistência e articulação política em defesa da cadeia produtiva do leite. Neste evento, produtores rurais, prefeitos, vereadores, parlamentares e representantes de diversas entidades se reuniram para discutir a crise que ameaça milhares de famílias gaúchas.
O foco das discussões foi o Projeto de Lei nº 412/2025, que busca proibir a reidratação de leite em pó importado para uso industrial ou alimentício no estado. A proposta, de autoria do deputado estadual Paparico Bacchi (PL), visa proteger a produção local e garantir a sustentabilidade da atividade leiteira.
O presidente da Cotrijal, Nei César Manica, destacou a importância do tema, ressaltando que a Expodireto sempre foi um espaço para debater os grandes desafios do setor agropecuário. Segundo ele, a atividade leiteira é fundamental para a subsistência de muitas famílias, e iniciativas que fortaleçam a cadeia produtiva são essenciais.
Atualmente, a cadeia do leite movimenta cerca de R$ 9,5 bilhões por ano no Rio Grande do Sul, abrangendo 451 municípios e sustentada por aproximadamente 28 mil propriedades, em sua maioria familiares. Contudo, nos últimos dez anos, mais de 55 mil famílias abandonaram a atividade, e o número de produtores caiu de 84 mil para menos de 29 mil. O aumento das importações de derivados lácteos, especialmente leite em pó, é visto como um dos principais fatores dessa crise. Um quilo de leite em pó pode gerar até oito litros de leite líquido, ampliando a oferta e pressionando os preços recebidos pelos produtores.
O deputado Bacchi enfatizou que a competição com o leite importado, que muitas vezes é vendido a preços mais baixos, configura uma concorrência desleal. Ele defendeu a necessidade de proteger os produtores que enfrentam altos custos de produção.
Rosângela Castelli, representando os agricultores, agradeceu ao deputado pela iniciativa de abrir o debate em defesa dos produtores, ressaltando a dificuldade da pauta para quem vive no campo. A importância de audiências públicas para aprimorar o projeto e evitar brechas legais foi destacada por Arlei Romeiro, presidente da Associação dos Produtores e Empresários Rurais (APER).
O suplente de senador Ireneu Orth e o senador Luis Carlos Heinze (PP) também participaram, alertando sobre a redução no número de produtores e a necessidade de uma maior valorização do setor primário. A união entre produtores e lideranças políticas foi ressaltada como fundamental para enfrentar os desafios do setor.
Representantes da indústria, como o presidente do Sindilat, mostraram-se abertos ao diálogo, afirmando que a entidade não é contrária à proposta, mas defendeu a construção de uma solução equilibrada para toda a cadeia produtiva.
Durante o encontro, surgiram sugestões para ampliar a proibição, incluindo composto lácteo, soro de leite em pó e outros derivados importados, além de impedir seu uso em bebidas lácteas. O projeto está atualmente na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa, aguardando a relatoria do deputado Bonatto.
Ao final do evento, o deputado Bacchi garantiu que todas as contribuições serão consideradas na elaboração da lei: “Nosso compromisso é construir uma legislação forte e efetiva, que realmente proteja a produção gaúcha e melhore a vida dos produtores.”
Mais uma vez, a Expodireto demonstrou que é um espaço não apenas para a vitrine tecnológica, mas também para a mobilização política e social. O futuro da atividade leiteira no Rio Grande do Sul dependerá da capacidade de transformar esse debate em legislação robusta e em políticas públicas que assegurem a sobrevivência da agricultura familiar frente à concorrência externa.