A trajetória do desenvolvimento da vacina contra a dengue

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Vacina Butantan-DV: um marco na luta contra a dengue no Brasil.

Em 2006, o cientista Isaías Raw, ex-diretor do Instituto Butantan, iniciou uma colaboração com pesquisadores do NIAID, visando desenvolver uma vacina contra a dengue. Naquele ano, o Brasil registrou 260 mil casos prováveis da doença, evidenciando a urgência de um imunizante nacional.

A parceria foi formalizada em 2009, quando o NIAID forneceu as cepas atenuadas dos quatro sorotipos do vírus da dengue para o desenvolvimento da vacina no Brasil. A tecnologia utilizada era resultado de uma década de pesquisas e mais de 30 ensaios clínicos de fase 1, que buscavam a melhor forma de atenuar cada um dos vírus para garantir uma resposta imune eficaz.

Os cientistas Stephen Whitehead e Anna Durbin, envolvidos no desenvolvimento das cepas atenuadas e nos ensaios clínicos, destacam a importância da colaboração com o Instituto Butantan ao longo de 20 anos, que foi crucial para a criação da vacina.

Desafios do desenvolvimento vacinal

Desenvolver um imunizante contra a dengue é um desafio complexo, devido à necessidade de proteção contra os quatro tipos do vírus. Anna Durbin alerta que a falta de imunidade contra todos os sorotipos pode aumentar o risco de dengue grave em infecções subsequentes.

A vacina atenuada precisa replicar os vírus o suficiente para estimular a produção de anticorpos, mas sem causar a doença. A equipe precisou personalizar as mutações genéticas para cada sorotipo, garantindo que cada cepa fosse segura e imunogênica.

Cada cepa foi testada em modelos animais e, posteriormente, em humanos, com 30 ensaios clínicos realizados para determinar os melhores candidatos. Esse processo rigoroso distingue a Butantan-DV das demais vacinas disponíveis, que não passaram por avaliações tão extensivas.

Um dos desafios adicionais foi encontrar a dosagem ideal para cada cepa. A pesquisa revelou que, por exemplo, apenas 1.000 partículas do DENV-4 eram suficientes para induzir uma resposta imune, otimizando custos e recursos.

Na fase final, duas formulações tetravalentes foram testadas, com a TV003 apresentando eficácia em gerar anticorpos contra todos os quatro tipos da dengue em 90% dos voluntários e um perfil de segurança superior. A Butantan-DV foi desenvolvida com base nessa formulação entre 2009 e 2012.

Segurança e eficácia

A segurança da vacina foi uma prioridade, especialmente para aqueles que nunca tiveram dengue. Pesquisadores do NIH/NIAID e do Butantan desenvolveram um modelo de infecção controlada para garantir que a vacina não aumentasse o risco de dengue grave em infecções futuras.

No Brasil, um ensaio clínico de fase 3 com 16 mil voluntários demonstrou que a vacina ofereceu alta proteção contra formas graves da doença, sem apresentar preocupações de segurança em nenhum dos grupos estudados.

Outro ponto positivo é que a vacina é administrada em dose única, o que facilita a imunização em larga escala. Anna Durbin ressalta que essa abordagem otimiza a cobertura vacinal, eliminando a preocupação com o retorno para uma segunda dose.

Impacto na saúde pública

Os cientistas acreditam que a vacina, aliada a estratégias de controle do mosquito Aedes aegypti, pode reduzir significativamente os casos de dengue no Brasil e em outras regiões endêmicas. A colaboração entre o NIH/NIAID e o Butantan foi fundamental para levar a vacina ao público.

Com metade da população mundial vivendo em áreas de risco para dengue, a vacinação em massa é essencial. A expectativa é que, ao imunizar o público de risco, o impacto na saúde pública seja comparável ao observado em doenças como sarampo e poliomielite.

Os pesquisadores também destacam a importância dos voluntários nos ensaios clínicos, que confiaram na ciência e contribuíram para a saúde pública.

A Butantan-DV recebeu aprovação da Anvisa em novembro de 2025 e começou a ser aplicada em janeiro deste ano. O imunizante foi inicialmente disponibilizado em municípios específicos e será gradualmente expandido para outros grupos da população.

Futuras pesquisas visam avaliar a vacina em crianças de 2 a 6 anos e em pessoas de 60 a 79 anos, com ensaios clínicos

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