Regime Iraniano: Por Que Cortar Uma Cabeça Não É Suficiente para Derrubá-lo
Irã enfrenta crise profunda, mas estrutura de poder resiste a mudanças.
Mais de quarenta anos após a Revolução de 1979, a República Islâmica do Irã enfrenta a crise mais grave de sua história.
A morte do Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, em ataques aéreos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel, resultou na perda de altos comandantes militares e na destruição de infraestrutura crítica.
Washington e Tel Aviv expressaram claramente o desejo de uma mudança de regime, incentivando o povo iraniano a derrubar seu governo. No entanto, especialistas destacam que o Irã estabeleceu uma estrutura de poder robusta e duradoura, difícil de ser desmantelada.
Essa resiliência é incomum em comparação com outros países do Oriente Médio, onde mudanças de regime ocorreram com mais frequência.
‘Hidra iraniana’
Desde a queda da monarquia, a República Islâmica desenvolveu um sistema político projetado para resistir a crises, combinando instituições rigidamente controladas, doutrinação ideológica e uma elite coesa.
O pesquisador Sébastien Boussois compara essa estrutura a uma Hidra: “Você corta uma cabeça e outras crescem”.
Recentemente, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, foi escolhido como seu sucessor, indicando a continuidade da linha dura do pai.
‘Poliditadura’
Ao contrário de outros países da região, o Irã tem demonstrado uma resistência mais eficaz a pressões externas, sustentada por um aparato de segurança fortemente motivado por ideologia.
O país opera como uma “poliditadura”, onde o poder é compartilhado entre defensores do islamismo político e um forte nacionalismo iraniano, dificultando a derrubada do regime.
O Conselho dos Guardiões, que veta leis e filtra candidatos, é um dos órgãos mais influentes, garantindo que nenhuma facção desafie seriamente o Estado.
Embora o Irã seja considerado uma autocracia, oferece aos cidadãos a possibilidade simbólica de votar, embora o processo seja rigidamente controlado.
O papel central da Guarda Revolucionária
As forças de segurança, especialmente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), são vistas como a “espinha dorsal do regime”.
A Guarda não apenas desempenha funções militares, mas também exerce influência política e econômica significativa, incluindo a milícia Basij.
A coesão das forças de segurança durante protestos é atribuída à ideologia, com uma cultura de martírio profundamente enraizada.
O vice-ministro da Defesa revelou que cada comandante da Guarda tem sucessores designados, garantindo continuidade operacional.
Analistas acreditam que, se o regime persistir, a Guarda terá um papel ainda mais preponderante.
Redes de patronagem e coesão das elites
A economia iraniana é amplamente controlada por organizações estatais, como as bonyads, que gerenciam milhares de empresas e distribuem empregos a grupos leais ao regime.
O império empresarial da Guarda Revolucionária reforça esse sistema de patronagem, que, apesar das sanções ocidentais, protege as elites e garante sua continuidade no poder.
Essa estrutura é considerada tão sólida que as deserções são raras.
Ideologia e o legado da revolução
A religião é fundamental para a preservação do poder no Irã, com uma rede de instituições religiosas e políticas que moldam a visão de mundo do Estado.
A ideologia serve como uma fonte de unidade e recrutamento, fortalecendo o sistema.
Uma oposição dividida
A oposição iraniana é historicamente fragmentada, composta por diversos grupos que não conseguem se unir em torno de um objetivo comum.
Após a revolução, o debate sobre a criação de partidos políticos foi ofuscado pela guerra com o Iraque, que durou quase uma década.
Facções moderadas foram marginalizadas, e movimentos de protesto, como o Movimento Verde de 2009, careceram de liderança centralizada.
A divisão entre os opositores e a vigilância estatal sofisticada dificultam a mobilização contra o regime.
