China devolve cargas de soja do Brasil e exportadora cancela embarques
China devolve navios de soja brasileira devido a contaminação com ervas daninhas.
O principal destino da soja brasileira, a China, é responsável por cerca de 80% das exportações do produto. Recentemente, cerca de 20 navios brasileiros foram devolvidos por apresentarem grãos de soja misturados a ervas daninhas proibidas no país asiático.
Em resposta a essa situação, representantes do Ministério da Agricultura do Brasil planejam uma viagem à China na próxima semana para discutir o tema. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarou que a qualidade da soja brasileira é inquestionável, mas reconheceu que a preocupação dos chineses é válida. Ele sugeriu a criação de um protocolo sanitário específico para o comércio de soja entre os dois países.
Problema não é de hoje
Embora a situação tenha ganhado destaque recentemente, especialistas afirmam que o problema não é novo. O analista do mercado de soja da StoneX Brasil, Raphael Bulascoschi, mencionou que a questão começou no final do ano passado, quando o órgão responsável pela fiscalização na China informou ao governo brasileiro sobre a chegada de carregamentos com excesso de sementes proibidas.
“Recentemente, a China intensificou a cobrança ao Ministério da Agricultura, levando o governo a adotar uma postura de ‘tolerância zero’ para evitar tensões diplomáticas e a emitir certificados fitossanitários com mais rigor”, acrescentou Bulascoschi.
Com isso, o Ministério passou a realizar inspeções mais frequentes e deixou de emitir certificados fitossanitários para carregamentos que não atendem às exigências. Sem esse certificado, as empresas ficam impossibilitadas de entregar a carga na China e de receber o pagamento.
Entidades representativas do setor, como a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, informaram que estão acompanhando a situação de forma atenta, mas não forneceram explicações detalhadas sobre o assunto.
O Ministério da Agricultura afirmou que se reuniu com as principais tradings e associações do país para atuar em conjunto na superação das dificuldades e na garantia dos elevados padrões de qualidade dos produtos brasileiros.
Impacto para as exportações
Analistas da Hedgepoint Global Markets consideram que o caso é pontual e não deve impactar significativamente o volume de soja exportado para a China. A fila de navios nos portos brasileiros permanece robusta, com cerca de 17 milhões de toneladas de soja, sendo 10 milhões destinadas ao mercado chinês.
“Até o momento, não há relatos de atrasos relevantes na saída de navios, o que indica que se trata de ajustes pontuais no processo de inspeção das cargas”, comentou Thais Italiani, gerente de Inteligência de Mercado.
Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de Inteligência de Mercado de Grãos e Oleaginosas, destacou que 20 navios com cargas de soja representam entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas, o que é considerado baixo em relação às 112 milhões de toneladas que o Brasil deve exportar no total no ano.
Nota da Abiove e da Anec
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) manifestaram preocupação com os desdobramentos relacionados aos embarques de soja destinados ao mercado chinês. Elas reafirmaram o compromisso de atuar de forma colaborativa com as autoridades e demais entidades da cadeia produtiva para garantir a fluidez do comércio e a segurança jurídica nas relações comerciais internacionais.
