Estudo revela que obesidade dos pais impacta metabolismo dos filhos

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Estudo revela como a obesidade paterna afeta o metabolismo dos filhos

A literatura científica já demonstra que a obesidade dos pais pode levar a alterações metabólicas nos filhos, aumentando a predisposição a doenças. Um novo estudo identificou o mecanismo pelo qual essa “herança” é transmitida pelo espermatozoide do pai ao embrião.

Pesquisadores realizaram experimentos com camundongos, observando que a prole de machos obesos nascia com peso normal, mas desenvolvia intolerância à glicose e resistência à insulina com o tempo. Essa condição, denominada de “disfunção metabólica silenciosa”, é um precursor do diabetes tipo 2.

Uma descoberta animadora foi que, ao perder peso, os pais eliminavam as “marcas” deixadas pela obesidade no sêmen, um achado que foi posteriormente confirmado em análises com humanos.

A pesquisa foi coordenada por um bioquímico da Universidade do Sul da Dinamarca, com a colaboração de cientistas da Universidade Estadual de Campinas. Os pesquisadores acompanharam o desenvolvimento da prole por seis meses, notando que, apesar de não apresentarem alterações no peso, o metabolismo dos animais estava comprometido.

Os machos foram mais afetados do que as fêmeas, possivelmente devido à maior suscetibilidade a problemas metabólicos. As fêmeas também apresentaram uma tendência à disfunção, mas em menor grau, refletindo uma resiliência metabólica observada em humanos.

Mensageiros químicos

No decorrer dos testes, os cientistas notaram que os camundongos obesos apresentavam um tipo de microRNA, conhecido como let-7, em seu tecido adiposo. Os microRNAs são moléculas que regulam a produção de proteínas nas células.

O excesso de let-7 também foi detectado nos espermatozoides dos machos obesos, sendo transferido ao zigoto durante a fecundação. Dentro do embrião, esse microRNA inibiu a produção de uma enzima chamada DICER, crucial para a maturação de outros microRNAs que regulam muitos genes.

A inibição da DICER prejudica o funcionamento das mitocôndrias, organelas responsáveis pela produção de energia celular. Essa disfunção mitocondrial altera como o tecido adiposo da prole lida com a energia, contribuindo para a intolerância à glicose na fase adulta.

Os pesquisadores ainda buscam entender como os níveis elevados de let-7 aumentam nos espermatozoides e a origem dessas moléculas. Existe a possibilidade de transferência do tecido adiposo para as células reprodutivas, mas essa questão permanece em aberto.

Na Unicamp, investigações estão em andamento para entender como a diminuição da DICER no tecido adiposo pode acelerar processos degenerativos relacionados a doenças crônicas, como o diabetes. Intervenções que promovem saúde e longevidade, como a atividade física, têm demonstrado aumentar a expressão da DICER.

Experimentos complementares

Para verificar se o aumento da expressão de let-7 era suficiente para causar as alterações metabólicas na prole, os cientistas injetaram a molécula em zigotos de animais saudáveis. Os resultados mostraram que essa injeção desencadeou as mesmas disfunções observadas na prole de animais obesos.

Para investigar a reversibilidade do fenômeno, machos obesos foram colocados em uma dieta padrão. Após nove semanas, o excesso de let-7 desapareceu tanto no tecido adiposo quanto no esperma. Os filhotes gerados por esses machos emagrecidos nasceram tão saudáveis quanto os do grupo controle.

Para validar os achados em humanos, foram analisados 15 homens com obesidade severa que se preparavam para tratamentos de fertilidade. Após seis meses de intervenção no estilo de vida, os níveis de let-7 diminuíram significativamente.

Os resultados indicam que a perda de peso está associada à redução dos níveis de let-7 no sêmen. Há evidências de que a saúde masculina influencia a qualidade do esperma, sugerindo que condições de estresse ou doenças podem afetar a saúde dos filhos concebidos nessas circunstâncias.

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