Davos sinaliza o reconhecimento do fim da ordem mundial pós-Segunda Guerra
Líderes globais reconhecem a transição para uma nova ordem mundial em Davos.
Líderes mundiais formalizaram o reconhecimento do fim da ordem internacional baseada no multilateralismo, estabelecida após a Segunda Guerra Mundial, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que se encerrou na sexta-feira (23.jan.2026). Autoridades da Europa e do Canadá enfatizaram a necessidade de uma mudança de atitude frente ao comportamento agressivo de nações como os Estados Unidos.
Essa nova realidade é consequência de transformações significativas no cenário global, que incluem tensões comerciais entre potências, disputas territoriais e o enfraquecimento das organizações criadas após 1945, como a ONU e a Otan. O modelo globalista, que prevaleceu por mais de sete décadas, está em colapso devido a esses fatores interligados.
Ursula Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Emmanuel Macron, presidente da França, e Mark Carney, primeiro-ministro canadense, caracterizaram essa mudança como uma “ruptura” violenta. O evento em Davos ocorreu em um contexto onde o presidente dos EUA, Donald Trump, expressou intenções de controle sobre a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, gerando tensões diplomáticas.
As declarações de Trump têm causado desgaste nas relações entre os Estados Unidos e a União Europeia, que tradicionalmente mantêm laços estreitos por meio da Otan. Recentemente, Trump afirmou que não pretende usar força para controlar a Groenlândia, mas insinuou que, se quisesse, ninguém poderia impedi-lo.
Von der Leyen alertou para a necessidade de corrigir o que ela chamou de “dependências estruturais” da Europa, defendendo uma maior autonomia no continente. Ela destacou que a nostalgia pela velha ordem não resolverá os desafios atuais e que a Europa deve aproveitar a oportunidade para se tornar independente.
Um marco importante nesse caminho foi o acordo recente entre a União Europeia e o Mercosul, após 26 anos de negociações. Von der Leyen mencionou que esse acordo representa uma escolha política clara, priorizando comércio justo e sustentabilidade em vez de tarifas e isolamento.
Macron, por sua vez, abordou a “mudança em direção a um mundo sem regras”, alertando para as “ambições imperialistas” e a falta de governança coletiva eficaz. Ele defendeu a importância do Estado de direito em contraste com a brutalidade.
Mark Carney descreveu o momento atual como o fim de uma “ficção confortável” e o início de uma “realidade dura”, enfatizando que não estamos apenas em uma transição, mas em uma ruptura. Ele afirmou que a velha ordem não retornará e que a nostalgia não é uma estratégia viável.
Durante o evento, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, destacou a necessidade de a Europa desenvolver sua própria autonomia para garantir segurança, descrevendo o continente como um “caleidoscópio fragmentado” e questionando a estabilidade da Otan.
Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, também abordou a desintegração da ordem mundial, observando que a paz em Davos contrasta com um mundo em que as bases do direito internacional estão se deteriorando. Ele defendeu que as nações democráticas devem reconhecer e afirmar sua capacidade militar como forma de garantir soberania.
Em contrapartida, Donald Trump, alvo de críticas, questionou as alianças multilaterais e expressou descontentamento, afirmando que os Estados Unidos têm sustentado o mundo sem receber o devido reconhecimento. Ele reiterou a necessidade de controlar a Groenlândia por razões de segurança nacional.
Trump também anunciou planos para um sistema de defesa na Groenlândia, com um custo estimado de US$ 175 bilhões. Ele utilizou a Segunda Guerra Mundial como justificativa para o controle da região, alegando que os EUA foram “burros” ao devolvê-la após o conflito.
O novo “Conselho da Paz”, fundado por Trump, conta com países que, em sua maioria, não são parte da União Europeia, refletindo uma nova dinâmica nas alianças internacionais. A Argentina, sob a liderança de Javier Milei, se destacou como um dos membros fundadores, criticando as políticas promovidas por entidades multilaterais.
