Aliados históricos destacam vulnerabilidades da Abin e exigem projeto de Lula
Brasil enfrenta desafios na inteligência de Estado em meio a complexidades geopolíticas.
A geopolítica mundial atravessa um momento delicado, caracterizado por intensas disputas por hegemonia econômica e recursos naturais, como petróleo e minerais críticos. Diante desse cenário, a necessidade de um serviço de inteligência e contrainteligência robusto se torna evidente, especialmente para um país com a dimensão e relevância do Brasil.
A estrutura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) é suficiente para enfrentar esses desafios? Um colaborador próximo ao governo optou por não comentar, mas figuras influentes do lulismo expressam opiniões negativas sobre a situação atual da Abin e do governo em geral.
“O Brasil não possui uma inteligência de Estado”, afirma José Genoino, ex-presidente do PT. Ele destaca a falta de informações cruciais para lidar com as crises geradas pelo trumpismo. Genoino acredita que a Abin se encontra em um estado de inércia e que a proposta de governo de Lula deveria priorizar a atividade de inteligência como uma questão estratégica.
Ricardo Berzoini, também ex-comandante do PT, reforça a urgência do tema, afirmando que a crescente relevância da inteligência artificial e a importância dos recursos naturais exigem um nível elevado de inteligência. Ambos participaram de um debate sobre “Inteligência de Estado na democracia”, que ocorreu em Brasília, promovido pela Intelis e pela Universidade Popular, contando com a presença de outros líderes do partido.
Embora alguns parlamentares tenham sido convidados para o evento, a ausência deles reflete um obstáculo significativo ao fortalecimento do serviço nacional de inteligência, segundo Acilino Ribeiro, reitor da Unipop. Ribeiro, que apresentou uma proposta de reforma da Abin ao governo de transição, critica a falta de empenho do Congresso em apoiar a agência.
De acordo com dados recentes, entre 2019 e 2026, o Congresso destinou apenas 14 milhões de reais em emendas para a Abin, enquanto o total das emendas cresceu exponencialmente de 13 bilhões para 50 bilhões de reais. Essa falta de recursos compromete a capacidade da Abin, que possui um orçamento de 933 milhões para este ano, dos quais apenas 81 milhões são destinados a “informação e inteligência”.
Comparativamente, a CIA dos Estados Unidos conta com um orçamento de 14 bilhões de dólares anuais, e até mesmo o serviço de inteligência da Argentina, um país menor em vários aspectos, possui mais recursos que a Abin.
O orçamento restrito não é o único desafio enfrentado pela Abin e pelo sistema de inteligência brasileiro, que inclui também as Forças Armadas e as polícias. Um oficial de inteligência, que prefere permanecer anônimo, critica a falta de diretrizes claras por parte do governo, afirmando que a Abin não pode atuar efetivamente no contexto geopolítico global sem uma inteligência civil bem estruturada.
Outro funcionário, cuja identidade também será preservada, menciona a falta de liderança na Casa Civil, criando um ambiente de desorientação. Após os eventos de 8 de janeiro de 2023, o presidente Lula transferiu a Abin da estrutura do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) para a Casa Civil, uma mudança significativa que visa reestruturar a agência.
José Dirceu, ex-presidente do PT, elogia a decisão de Dilma Rousseff de extinguir o GSI, considerando-a uma medida acertada. Ele argumenta que a presença militar na atividade de inteligência é problemática, uma vez que as Forças Armadas tendem a agir de acordo com interesses próprios, não alinhados aos do Brasil.
Os participantes do debate concordam que a mentalidade militar ainda permeia a Abin, com uma visão centrada no “inimigo interno”, um legado da repressão durante a ditadura militar entre 1964 e 1985. Genoino enfatiza que essa cultura impacta a atuação da inteligência no Brasil, que é marcada por uma postura autoritária, resultado de uma longa história de escravidão e colonialismo no país.