A força da descentralização na Feira do Livro da Restinga e a voz da periferia
Feira do Livro da Restinga destaca a comunicação e cultura nas periferias de Porto Alegre.
Com um paletó alinhado e um microfone improvisado, Marco Maragato, comunicador da Rádio 98, percorre as ruas da 2ª Feira do Livro da Restinga, simbolizando a conexão entre as vozes locais. Sua abordagem reflete um jornalismo que valoriza a urgência e a criatividade, representando a forma como a Restinga se comunica internamente.
A feira, realizada pela Câmara Rio-Grandense do Livro entre 9 e 12 de abril, vai além de um evento cultural. Ela representa a descentralização da Feira do Livro de Porto Alegre, permitindo que novas narrativas sejam ouvidas. Nas periferias, o consumo de informação tem se deslocado da mídia tradicional para as redes sociais e aplicativos de mensagem, onde criadores locais atuam como mediadores da realidade.
Um estudo revela que mais de 60% dos moradores de áreas periféricas confiam mais em informações de pessoas próximas ou influenciadores locais do que em veículos de comunicação tradicionais. Isso é especialmente verdadeiro no WhatsApp, que é amplamente utilizado. Os residentes da Restinga não apenas consomem conteúdos locais, mas também confiam neles, criando um vínculo que é difícil de reproduzir por grandes meios de comunicação. Estima-se que milhões de conteúdos sejam gerados diariamente nessas comunidades, formando ecossistemas de informação onde a experiência local tem tanto valor quanto os fatos.
A presença da imprensa tradicional na feira foi significativa, com cobertura ampla por TVs, rádios e jornais do estado, reconhecendo sua importância cultural. O jornalista Paulo Germano, em comentários na Rádio Gaúcha e no Jornal do Almoço, elogiou a iniciativa e mencionou a Feira do Livro do Jardim Leopoldina, destacando o reconhecimento da relevância cultural desses eventos.
Entretanto, é crucial entender que a cobertura da imprensa não visa informar a Restinga, mas sim torná-la visível. Historicamente, as regiões periféricas têm sido retratadas apenas em situações de crise. A Feira do Livro da Restinga desafia essa narrativa ao destacar o território como um polo cultural, repleto de leitores, artistas e produtores de conhecimento. Essa visibilidade simbólica ressalta a necessidade de investimentos contínuos em políticas públicas e iniciativas privadas que fortaleçam a cultura local. Dados indicam que iniciativas culturais nas periferias podem aumentar em até 30% o engajamento comunitário com leitura e atividades artísticas.
A urgência para ações culturais é clara. De acordo com uma pesquisa, 53% dos brasileiros não leram nenhum livro no último ano, marcando a primeira vez que os não-leitores superam os leitores. Entre as classes C, D e E, a média anual de leitura é de apenas dois livros por pessoa. Diante desse cenário, eventos como a Feira do Livro da Restinga são essenciais, pois descentralizam o acesso, democratizam a cultura e demonstram que a comunicação nas periferias é uma força transformadora.
