Mito dos dois litros de água por dia é desmascarado por pesquisas científicas atuais
Revisão sobre a ingestão de água: mito ou necessidade?
Uma das regras mais conhecidas na saúde é a recomendação de beber cerca de dois litros de água por dia, frequentemente expressa como oito copos. Essa diretriz é amplamente divulgada em aplicativos de fitness e conselhos de influenciadores, mas a verdade é que existe um mito por trás dessa afirmação.
A medicina reconhece que “não existem pessoas iguais”, o que implica que as necessidades hídricas variam de acordo com características individuais. A quantidade de água que uma pessoa deve consumir depende de fatores como altura, peso e nível de atividade física. Assim, a regra dos dois litros não é aplicável a todos, especialmente quando se compara uma pessoa muito alta e musculosa a um idoso com metabolismo mais lento.
A origem desse mito remonta a 1945, quando uma diretriz do Conselho de Alimentação e Nutrição sugeriu uma ingestão de 2,5 litros de líquidos por dia. No entanto, muitos ignoraram que a maior parte dessa quantidade provém dos alimentos, não apenas da água que bebemos.
As instituições de saúde oferecem diretrizes variadas sobre a ingestão de água. Por exemplo, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos recomenda 2 litros por dia para mulheres e 2,5 litros para homens, considerando a totalidade de líquidos ingeridos, incluindo alimentos. Nos Estados Unidos, o Instituto de Medicina sugere 2,7 litros para mulheres e 3,7 litros para homens, novamente englobando toda a ingestão alimentar.
Estudos recentes têm desafiado a ideia de que todos precisam de uma quantidade fixa de água diariamente. Uma pesquisa publicada na revista Science em 2022, que analisou a troca de água em mais de 5.600 pessoas, concluiu que as necessidades variam amplamente. Para a maioria das pessoas em climas temperados e com estilo de vida sedentário, a ingestão ideal de água se situa entre 1,5 e 1,8 litros por dia.
Essas descobertas foram corroboradas por outra pesquisa na revista Scientific Reports, que indicou uma necessidade média de 1,6 litros para mulheres e 2,0 litros para homens, levando em consideração fatores como idade, sexo e composição corporal.
Embora alguns defendam a ideia de beber água antes de sentir sede, a fisiologia moderna mostra que o corpo humano é eficiente em regular a ingestão de água. Quando a concentração de solutos no sangue aumenta, o cérebro ativa a sensação de sede, indicando que é hora de beber água.
Existem, no entanto, exceções. Pessoas idosas podem não sentir sede adequadamente, e atletas em atividades intensas precisam monitorar sua hidratação de forma mais rigorosa. Para a maioria, beber água quando se tem sede é a abordagem mais eficaz.
Embora o mito dos dois litros não se sustente, a água continua sendo essencial para a saúde. Estudos recentes confirmam que aumentar a ingestão de água pode ter benefícios terapêuticos em situações específicas, como em casos de pedras nos rins, infecções do trato urinário e para auxiliar na perda de peso.
A obsessão por consumir dois litros de água diariamente exemplifica como uma recomendação científica mal interpretada se torna um dogma cultural. As necessidades hídricas são dinâmicas e dependem de diversos fatores. Para pessoas que consomem muitas frutas e verduras e têm um estilo de vida sedentário, forçar a ingestão de água pode resultar apenas em idas frequentes ao banheiro.
Por fim, é importante reconhecer que a prática de exercícios intensos exige uma maior reposição de líquidos, enquanto indivíduos sedentários podem não necessitar de tanta água. A compreensão das necessidades hídricas deve ser individualizada e baseada em hábitos de vida e saúde pessoal.
