Vinhos soterrados por enchentes no RS ganham edição especial enquanto agricultores celebram retomada após tragédia
Agricultores do Rio Grande do Sul inovam com novas variedades de uva e superam desafios climáticos.
A safra deste ano no Rio Grande do Sul é considerada “emblemática”, com uma produção que atingiu 905 mil toneladas, incluindo uvas de mesa e para a indústria. Esse volume é considerado acima da média, refletindo o esforço dos agricultores e as condições climáticas favoráveis.
Esse sucesso não é apenas resultado do clima, mas também de um aumento significativo nos investimentos em tecnologia e da determinação dos agricultores em superar adversidades.
Vinhos soterrados
Os viticultores da região enfrentaram perdas severas nos últimos anos. O produtor Arnaldo Argenta, de Barão (RS), compartilha que sua propriedade foi impactada por transbordamentos e enchentes durante três anos consecutivos, entre 2023 e 2025.
Em maio de 2024, sua família perdeu toda a produção em fermentação e teve máquinas danificadas pela lama, acumulando um prejuízo de aproximadamente R$ 1,5 milhão.
Para seguir adiante, a família transformou a tragédia em um símbolo de resistência: das garrafas soterradas, 180 foram limpas e vendidas como a “Edição Inundação”, acompanhadas de um poema sobre a força da terra e da água.
Arnaldo destaca que, apesar dos desafios, a resiliência é fundamental. “A gente vai levar cinco anos para voltar ao estágio em que estávamos, mas temos muita resiliência e vamos conseguir.”
Tecnologia contra as mudanças climáticas
Para mitigar os riscos das variações climáticas, muitos agricultores estão adotando o sistema de cultivo coberto. Essa técnica protege as uvas da chuva e reduz em até 90% a ocorrência de doenças fúngicas, permitindo uma irrigação mais eficiente.
Embora a implementação desse sistema tenha um custo elevado, cerca de R$ 450 mil por hectare, a proteção que oferece é considerada essencial. Além disso, a pesquisa de novas variedades de uvas é crucial para o desenvolvimento do setor.
Em Santa Teresa, a família de João Paulo Berra mantém uma área experimental com 50 variedades de uvas europeias, incluindo a Palava, originária da República Checa, que ajuda a escalonar a colheita e o processamento industrial.
Tradição que atravessa gerações
A viticultura na Serra Gaúcha é uma herança que remonta à chegada dos imigrantes italianos em 1875. Atualmente, cerca de 15 mil famílias cultivam uvas no estado, concentrando 90% da produção na região serrana.
Para muitos, como João Paulo Berra, a continuidade do trabalho é uma questão de legado familiar. Mesmo atuando na cidade, ele retorna todos os anos durante a colheita para preservar a tradição da quinta geração de sua família.
“A viticultura não é só uma fonte de renda, é um legado. Passa de pai para filho”, resume João Paulo.
