Comunicação como ferramenta de proteção: exigências da NR-1 para líderes e lacunas a serem preenchidas
Normas de saúde mental no trabalho exigem atenção dos gestores a riscos psicossociais.
Após uma reunião, um gestor se sentiu confuso sobre suas reações. Embora não tenha sido a mais desafiadora de sua carreira, ele saiu sem compreender totalmente o que havia acontecido.
Não se tratou de falta de preparo ou de má intenção; foi um estado interno que influenciou suas respostas antes mesmo da escolha consciente. Ele agiu impulsivamente e só conseguiu entender as consequências depois.
A situação não se limita ao ambiente de trabalho. É comum que ocorra em casa, em conversas sobre relacionamentos ou ao responder a um filho de maneira mais ríspida do que pretendia. O contexto pode mudar, mas o mecanismo permanece o mesmo.
Esse fenômeno se manifesta com frequência, gerando custos significativos. É exatamente nesse momento — antes da fala e do comportamento visível — que os riscos psicossociais se instalam nas equipes. A partir de 2026, essa questão passará a ter um enfoque legal.
O que a norma vai cobrar de quem lidera
A atualização da NR-1 agora inclui os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das empresas, ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos. A saúde mental deixou de ser uma mera recomendação e se tornou uma obrigação legal, sujeita a fiscalização e a processos trabalhistas.
Um dado crucial para os gestores é que cinco dos nove riscos psicossociais listados na norma são, na essência, problemas de comunicação. Questões como falta de clareza sobre papéis, exigências contraditórias, ausência de reconhecimento, falta de apoio da liderança e até mesmo linguagem violenta, mesmo que sutil, estão entre os principais fatores.
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, um recorde histórico e um aumento de 15% em relação ao ano anterior. Um estudo indicou que o conflito com a liderança é a segunda principal causa de burnout, presente em 39% dos casos. Além disso, processos trabalhistas relacionados ao esgotamento cresceram quase 15% nos primeiros meses de 2025.
A partir de agora, as empresas cobrarão dos gestores a responsabilidade de cuidar de suas equipes. Contudo, há uma questão que ainda não está sendo abordada nessa cobrança.
O que o mercado ainda não está oferecendo ao gestor
O líder brasileiro médio em 2026 já possui alguma formação em comunicação ou liderança. Mesmo aqueles que estão na função há pouco tempo podem ter participado de treinamentos ou terapia. No entanto, muitos ainda saem de reuniões sem entender o que ocorreu, enfrentando conversas que descarrilam antes que percebam.
Esse mesmo gestor que não consegue manter a calma em uma reunião difícil é o que, ao chegar em casa, já se encontra sem paciência. Ele responde de forma impulsiva, fecha-se antes de ouvir e só percebe as consequências quando está sozinho.
Esse não é um problema de falta de preparo, mas sim uma questão de profundidade interna.
A maioria dos treinamentos disponíveis foca em aspectos superficiais, como estruturar feedbacks ou conduzir conversas difíceis. Embora essas habilidades sejam valiosas, elas pressupõem uma clareza interna que raramente está presente em situações de pressão. Aplicar técnicas sobre uma confusão interna não resulta em comunicação eficaz, mas sim em performance. E essa performance sem coerência é exatamente o que a NR-1 busca prevenir, sem conseguir operacionalizar diretamente.
O que a norma não aborda é o momento que antecede o comportamento do líder, um instante em que tudo ainda poderia ser diferente. Esse é o espaço que nenhuma campanha de bem-estar ou palestra de Janeiro Branco consegue atingir.
Com uma carreira de mais de 25 anos em Comunicação, com foco em gestão de crise e reputação, venho dedicando a última década a entender o que ocorre internamente nos profissionais antes de agirem. O estado interno que orienta a ação, muitas vezes sem que a pessoa tenha consciência disso.
Nas sessões que conduzo, esse padrão se repete: o profissional que relata conflitos com a equipe durante a semana e desentendimentos familiares no fim de semana. Não porque seja negligente, mas porque ninguém trabalhou com ele o que acontece antes — em qualquer um dos contextos.
A empresa exigirá que o gestor cuide de sua equipe, mas é urgente também desenvolver a capacidade do líder de perceber o que se passa dentro dele
