Acordo UE-Mercosul: impactos para ganhadores e perdedores no Brasil
Acordo entre Brasil e UE promete benefícios e desafios para diferentes setores
O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia começa a ser aplicado provisoriamente nesta sexta-feira (1º), após mais de duas décadas de negociações. Essa implementação gradual já gera efeitos imediatos nas exportações brasileiras.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), mais de 80% dos produtos brasileiros enviados ao bloco europeu terão tarifa de importação zerada desde o início do acordo.
- 🛒 Ao todo, mais de 5 mil itens entram no mercado europeu sem imposto, ampliando o acesso das empresas nacionais.
Embora o Brasil seja o principal beneficiado, concentrando mais de 80% do comércio do Mercosul com a União Europeia, a distribuição dos ganhos não será uniforme entre setores e regiões do país.
Especialistas apontam que o acordo amplia oportunidades, mas também expõe fragilidades estruturais do país. Ele favorece os setores já competitivos, mas pode pressionar aqueles que dependem mais do mercado interno.
“Ele beneficia quem já é competitivo, mas deve acabar pressionando quem depende mais do mercado interno.”
Os ganhos mais imediatos devem ocorrer no agronegócio voltado à exportação, que é tradicionalmente competitivo e favorecido pelo desenho do acordo. Produtos como carnes de aves e suína, óleos vegetais, açúcar, etanol para uso industrial e café não torrado têm grande potencial de aumento nas vendas para a União Europeia.
Embora haja limitações de acesso ao mercado europeu para itens sensíveis, como carne bovina e açúcar, o volume autorizado representa uma ampliação significativa em relação ao comércio atual. Os principais beneficiados devem ser as regiões do Centro-Oeste e parte do Sul, onde se concentram grãos e proteína animal, além de agroindústrias exportadoras.
Diferentemente de outros acordos firmados pelo Brasil, o tratado com a União Europeia também traz ganhos imediatos para a indústria exportadora. Dados da CNI mostram que, dos 2.932 produtos brasileiros com tarifa zerada, cerca de 93% são bens industriais.
Entre os setores mais beneficiados estão máquinas e equipamentos, metalurgia, materiais elétricos, produtos químicos e alimentos industrializados. No setor de máquinas e equipamentos, quase 96% das exportações brasileiras para a Europa passarão a entrar sem tarifa, o que inclui compressores, bombas industriais e peças mecânicas.
A eliminação das tarifas promete reduzir custos e aumentar a competitividade das empresas brasileiras em relação a concorrentes de países que não possuem acordos comerciais com o bloco europeu.
Outro grupo que pode se beneficiar do acordo, embora de forma mais gradual, é a indústria brasileira que utiliza insumos, máquinas e componentes europeus. Hoje, tarifas que chegam a 35% encarecem equipamentos e produtos químicos importados da União Europeia. A eliminação progressiva dessas tarifas pode reduzir custos de produção e melhorar a competitividade.
Entre os segmentos com potencial de ganho estão a indústria química, farmacêutica, autopeças e setores de alta dependência tecnológica. Contudo, esses ganhos dependem de investimentos e de um ambiente de negócios mais favorável no país.
Por outro lado, o acordo pode aumentar a pressão sobre setores industriais menos competitivos, especialmente aqueles voltados ao mercado interno. A expectativa é de que a concorrência com produtos europeus de maior valor agregado se intensifique, mesmo com prazos longos para a redução de tarifas.
O risco não é um fechamento abrupto de fábricas, mas uma perda progressiva de participação de mercado, especialmente no Sudeste, principal polo industrial do país.
A agricultura familiar e pequenos produtores também veem o acordo com cautela, especialmente em segmentos como queijos, vinhos e produtos artesanais. Embora o tratado proteja indicações geográficas brasileiras, a concorrência com produtos europeus, muitas vezes subsidiados e produzidos em grande escala, pode dificultar a permanência no mercado doméstico.
Para esses segmentos, é essencial adaptação rápida, acesso a crédito, certificações e políticas públicas de apoio para enfrentar os desafios que o acordo pode trazer.
