Letramento digital crítico como estratégia para lidar com a inteligência artificial
A inteligência artificial nas escolas: desafios e oportunidades para a educação brasileira
A inteligência artificial já se faz presente nas instituições de ensino, trazendo à tona um desafio crucial: assegurar que essa tecnologia contribua para o aprendizado, em vez de acentuar as desigualdades existentes. Com a convivência de cadernos e quadros com plataformas digitais, assistentes virtuais e sistemas de recomendação, a transformação necessária exige uma abordagem pedagógica e tecnológica simultânea.
Durante muito tempo, acreditou-se que os educadores eram avessos a inovações, mas dados recentes revelam uma realidade diferente. Uma pesquisa aponta que 56% dos professores brasileiros utilizam ferramentas de IA em suas práticas diárias, superando a média de países desenvolvidos, onde a utilização é de 36% na OCDE e 32% na União Europeia. Entretanto, entre aqueles que ainda não adotam a IA, 60% alegam falta de formação adequada ou infraestrutura insuficiente, refletindo um diagnóstico alarmante: a barreira é estrutural, não cultural. Essa situação impõe um grande desafio para a implementação de inovações tecnológicas nas escolas, que carecem de conectividade robusta, equipamentos funcionais e formação contínua. A ausência desses elementos já gera consequências visíveis.
A primeira consequência é a perda de oportunidades reais de aprimorar a aprendizagem. O Brasil enfrenta, há anos, sérios problemas no ensino médio, e estudos internacionais demonstram que a IA, quando integrada de maneira eficaz ao trabalho dos educadores, pode ajudar a reduzir lacunas persistentes. Em Edo, na Nigéria, um programa de tutoria com IA resultou em avanços educacionais equivalentes a até dois anos de escolaridade em apenas seis semanas. Nos Estados Unidos, investigações mostram que mesmo tutores inexperientes conseguem personalizar o ensino e obter melhores resultados com o suporte da IA. Assim, a educação permanece humana, mas a IA potencializa a personalização e o apoio ao aluno, oferecendo uma oportunidade concreta para que estudantes brasileiros, especialmente os mais vulneráveis, tenham uma aprendizagem mais eficaz.
Além disso, a falta de integração plena da tecnologia nas escolas não prepara os jovens para o mundo em que já vivem. Dados revelam que a IA é parte do cotidiano dos estudantes brasileiros, com sete em cada dez alunos do ensino médio utilizando ferramentas generativas para pesquisas e tarefas. Contudo, apenas 32% receberam orientação adequada de professores sobre como usá-las. Essa ausência de mediação pedagógica resulta em noções imprecisas sobre a navegação no ambiente digital. Pesquisas indicam que 59% dos estudantes não sabem que o primeiro resultado de uma busca pode não ser o mais relevante, 43% não compreendem que interações online podem prejudicar outros, e 27% desconhecem a influência de empresas sobre conteúdos na internet. Essas são habilidades básicas que a escola deveria garantir, mas que estão sendo negligenciadas.
A situação se torna ainda mais preocupante diante do avanço acelerado da automação. Estima-se que, atualmente, 47% das atividades econômicas são realizadas exclusivamente por humanos, percentual que deve cair para 33% até 2030. Essa mudança será absorvida por máquinas e sistemas inteligentes. Exemplos concretos já surgem, como o anúncio da Amazon, que prevê a redução de 500 mil postos de trabalho devido à automação. Ignorar a formação em habilidades digitais nas escolas condena parte da juventude a uma posição vulnerável no mercado de trabalho. O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) incorporará, em 2029, uma avaliação específica de Alfabetização Midiática e Inteligência Artificial, reconhecendo a importância dessas competências no mundo atual.
Estamos, portanto, em um ponto de inflexão. A IA possui o potencial de reduzir desigualdades históricas, especialmente ao oferecer suporte aos estudantes que mais necessitam. No entanto, se não enfrentarmos as disparidades de infraestrutura e formação docente, corremos o risco de perpetuá-las ou até ampliá-las. A questão que se coloca é clara: a IA será uma ferramenta de equidade ou de aprofundamento das desigualdades educacionais no Brasil?
A resposta a essa pergunta depende da nossa capacidade de criar condições reais para que a tecnologia seja utilizada de maneira crítica, ética e pedagógica. Para isso, são necessários três pilares estruturantes:
- Escolas com infraestrutura adequada
A infraestrutura deve suportar o uso diário e equitativo das ferramentas digitais. Relatórios indicam avanços, mas as desigualdades regionais ainda demandam investimentos direcionados. Sem conectividade significativa, não há como utilizar ferramentas digitais como instrumentos de aprendizado. - Formação docente
