Santa Rosa celebra 60 anos da semente que revolucionou a soja no Brasil
Santa Rosa: Berço da Soja Brasileira e Pilar do Agronegócio Global
Marcos Servat destacou a importância de Santa Rosa como o berço da soja brasileira, simbolizando uma trajetória que transformou o país em uma potência agrícola global.
A história da cultivar Santa Rosa é um exemplo claro de como uma necessidade pode se tornar uma grande potência. Lançada em 1966, durante a primeira Fenasoja, em Santa Rosa, esta variedade foi a primeira soja de relevância comercial adaptada ao clima brasileiro, marcando um ponto de virada na agricultura nacional.
O início dessa jornada remonta a 1914, quando o pastor norte-americano Albert Lehenbauer introduziu a soja no noroeste do Rio Grande do Sul. Em uma região carente de mercado, renda e alimentos, o grão surgiu não como uma commodity, mas como uma alternativa de sobrevivência, sendo cultivado para o consumo familiar e como ração para suínos, que eram a base da economia local.
Esse início humilde moldou um sistema produtivo. A crescente demanda por ração impulsionou a instalação da primeira indústria processadora de soja no Brasil, em 1941, em Santa Rosa. Assim, o que começou como uma prática de subsistência começou a ganhar importância econômica.
No entanto, até a década de 1960, o Brasil ainda dependia de variedades estrangeiras, que não eram bem adaptadas ao clima local. A mudança começou no Instituto Agronômico de Campinas, onde, em 1953, os pesquisadores Leonard F. Williams e Shiro Miyasaka realizaram o cruzamento que resultaria na cultivar Santa Rosa, a qual se destacou pela sua adaptação ao campo brasileiro.
O técnico Juarez Guterres foi fundamental para reconhecer o potencial da cultivar e realizar os ensaios necessários em Santa Rosa. O resultado foi uma soja mais alta, rústica e produtiva, que se adaptou perfeitamente ao ambiente brasileiro. Seu lançamento, em 1966, não apenas introduziu uma nova variedade, mas também simbolizou a transição do Brasil de uma dependência externa para uma agricultura autossustentável.
Com o tempo, a soja rapidamente se espalhou pelo Sul do Brasil e avançou para o Centro-Oeste, impulsionada por produtores que enxergaram no grão uma oportunidade de crescimento. A trajetória da família Daltrozo evidencia esse movimento, com legados que perduram nas práticas agrícolas atuais.
Lucas Daltrozo, um produtor rural em Primavera do Leste (MT), destaca: “A família seguiu o legado de resiliência que levou a cultivar Santa Rosa àquela região, e de outras pessoas que abriram fronteiras agrícolas e contribuíram para que o Brasil se tornasse o maior produtor de soja do mundo.”
A cultivar Santa Rosa não apenas ocupou novas áreas, mas também se tornou a base genética da soja brasileira, servindo como referência para o melhoramento das variedades que surgiram posteriormente. A criação da Embrapa, em 1975, consolidou esses avanços, desenvolvendo cultivares adaptadas a diversas regiões e reforçando a soja como uma cultura nacional.
A pesquisadora Mônica Zavaglia afirma: “A Santa Rosa é uma das cultivares mais importantes para o desenvolvimento da soja como cultura nacional. O fio que conecta a Santa Rosa ao que o Brasil é hoje no agronegócio é direto.”
Os números refletem o impacto dessa cultivar. Em 1960, a produção brasileira de soja era de cerca de 206 mil toneladas, enquanto a projeção para a safra 2025/26 ultrapassa 179 milhões de toneladas. A produtividade quadruplicou e o complexo soja representa cerca de 6% do PIB nacional.
Sessenta anos depois, embora a cultivar Santa Rosa não ocupe mais as lavouras modernas, seu legado é parte fundamental das variedades atuais, da estrutura produtiva e da posição estratégica do Brasil no comércio global.
Na origem dessa transformação, está Santa Rosa, o território que apostou na soja antes de qualquer outro no país. “A Santa Rosa é o símbolo disso. Ela nasceu aqui, cresceu aqui e foi daqui que o Brasil aprendeu a cultivar o grão que hoje alimenta o mundo”, resume Servat.
A soja, que começou como ração nas propriedades rurais, tornou-se o principal ativo do agronegócio brasileiro. Sessenta anos depois, ainda carrega no nome o endereço de origem: Santa Rosa.