Estranhos Tempos Mórbidos

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Reflexões sobre a crise política e a ascensão do neofascismo no Brasil

Com Antonio Gramsci, entendemos que a crise política é um momento em que o velho morre, mas o novo não consegue nascer. No Brasil, essa dinâmica se reflete na persistência de um neofascismo que, embora apresente novas roupagens, continua a ser autoritário e regressivo.

Atualmente, vivemos um tempo de incertezas, sem mobilização social significativa, caracterizado por um “ponto morto”. Esse cenário se assemelha a um intervalo histórico, onde a espera indefinida abre espaço para soluções regressivas, predominantes na América do Sul. A possibilidade de rupturas democráticas ou a continuidade de regimes autoritários se torna uma realidade palpável.

A ordem internacional também se encontra em uma corrida para o desconhecido, com os Estados Unidos apostando em uma nova guerra que pode impulsionar a extrema-direita global. A crise do trabalho, o enfraquecimento do sindicalismo e a queda dos partidos de esquerda são consequências diretas desse cenário. A exaustão de partidos comunistas na Europa, como o PCI e o PCF, ilustra o colapso das alternativas progressistas, deixando um vácuo que é rapidamente preenchido por governos de direita.

Os ecos da história, como a aventura nazifascista dos anos 30 e 40, não devem nos surpreender. A afirmação de que “a história não se repete, mas rima” é particularmente verdadeira no Brasil, onde as mudanças políticas estão intrinsecamente ligadas às circunstâncias históricas. A atual etapa é marcada pela crise do capitalismo e pela expansão do imperialismo norte-americano, que se manifestam na desilusão com os governos de centro-esquerda e sociais-democratas.

Os governos de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Michelle Bachelet, entre outros, abriram caminho para o avanço da extrema-direita, refletindo a fragilidade das promessas feitas durante suas campanhas. A desilusão social, que já havia se manifestado nas primeiras décadas do século passado, novamente cria um espaço que a direita ocupa, evidenciado nas eleições de figuras como Javier Milei e Jair Bolsonaro.

A crise das experiências de centro-esquerda revela um desvio político-ideológico, onde os governos, em vez de promover mudanças, se submeteram ao neoliberalismo. As consequências desse percurso são claras e impactantes, preparando o terreno para o crescimento da extrema-direita.

O “bolsonarismo” emergiu como uma força significativa, oferecendo suporte popular ao neofascismo em um momento de crise da esquerda. A regressão política é resultado de múltiplas causas, incluindo a falência do neoliberalismo, que os governos não conseguiram resistir. A arte de governar, muitas vezes, se confunde com a arte da conciliação, uma estratégia que não tem servido para avançar os interesses das grandes massas.

O drama da esquerda reformista, em meio ao recesso da esquerda socialista, é um reflexo do custo da adoção da conciliação como estratégia. Essa abordagem, que deveria ser tática, tornou-se um projeto de nação esgotado, sem mais frutos a oferecer.

As dificuldades enfrentadas pelo governo Lula, incluindo a rejeição de sua indicação ao STF, não podem ser vistas isoladamente, mas como parte de uma crise republicana mais ampla. A história nos ensina que nenhuma crise é um evento isolado, mas sim um processo contínuo que reflete a luta de forças sociais.

As transformações políticas não surgem de eventos súbitos, mas do desgaste acumulado das formas de direção política. É crucial que a esquerda e o governo reconheçam que as eleições de outubro podem trazer mudanças significativas, além da simples troca de liderança no Planalto.

Isso é natural? A naturalização do absurdo é um dos aspectos mais perturbadores da atualidade. O líder dos EUA, por exemplo, apoia ações que desestabilizam a geopolítica global, mas continua a ser tratado com subserviência, como evidenciado pela próxima cúpula do G20 em um local emblemático de sua propriedade.

A ida ao bunker – A recente visita do presidente Lula à Casa Branca, embora repleta de nuances, também pode ser interpretada como uma resposta ao cenário distópico atual. A habilidade de Lula em se posicionar diante de Trump pode oferecer lições valiosas tanto para a extrema-direita quanto para a mídia que a apoia

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