Dois anos após enchente histórica, 45% das famílias em ocupação em São Leopoldo sobrevivem com menos de um salário mínimo
Estudo revela condições precárias na ocupação RedeMix em São Leopoldo
Um levantamento recente revelou a realidade alarmante de 580 moradores da ocupação RedeMix, localizada no bairro Rio dos Sinos, em São Leopoldo. O estudo aponta que 87,4% das famílias sobrevivem com menos de dois salários mínimos, e a insegurança alimentar afeta uma a cada quatro famílias.
O diagnóstico, realizado pelo Instituto ELAborar, foi concluído em fevereiro e envolveu 200 domicílios. Os dados retratam um cenário de vulnerabilidade multidimensional, com moradia precária, baixa renda, acesso limitado à saúde e fragilidade nos vínculos comunitários.
A comunidade ainda se recupera dos efeitos devastadores da enchente histórica que, dois anos atrás, danificou ou destruiu todas as residências. Os traumas permanecem e a situação das moradias se agrava a cada nova chuva.
O projeto foi desenvolvido em parceria com a Unisinos, o Serviço Jesuíta de Migrantes e Refugiados (SJMR-Brasil) e a Secretaria Municipal de Saúde de São Leopoldo, contabilizando 94 horas de trabalho técnico que envolveram profissionais de diversas áreas, como Psicologia, Enfermagem, Serviço Social, Pedagogia e Comunicação.
“O fato de um território com dez anos nunca ter sido formalmente mapeado evidencia uma ausência de dados e uma invisibilidade estrutural. Tornar essa realidade visível é crucial para que políticas públicas e ações reais possam ser implementadas”, afirma a fundadora do Instituto ELAborar.
A pergunta que surge é a respeito da situação de outras ocupações no Brasil que permanecem sem mapeamento ou visibilidade. Sem dados concretos, essas populações continuam fora das prioridades e das políticas públicas.
Perfil da população
Na ocupação, 580 moradores residem em 200 domicílios, sendo 40,95% crianças e adolescentes. Além disso, 62% das famílias vivem no local há mais de três anos e 15,5% são imigrantes venezuelanos.
Renda e trabalho
O estudo revelou que 87,4% das famílias vivem com até R$ 3 mil mensais, sendo que 45,1% sobrevivem com até R$ 1.500. A informalidade do trabalho é significativa, com 53,5% das mulheres ocupadas atuando nesse regime, e 80,3% dos moradores não concluíram a educação básica.
Impactos da enchente de 2024
As enchentes de maio de 2024 causaram danos diretos à comunidade, afetando todas as residências e forçando a remoção temporária das famílias. A pesquisa indica que 55,6% desejam permanecer na área, desde que haja regularização, enquanto 44,4% preferem mudar-se.
Saúde e acesso
Entre os moradores, 26,8% enfrentaram insegurança alimentar recente e 43,7% estão em tratamento para doenças crônicas. Além disso, 42,3% relataram dificuldades em acessar atendimento médico.
Rede de proteção à mulher é desconhecida
A questão da violência é sensível na comunidade. Apenas 7% das mulheres se sentiram à vontade para relatar violência doméstica, mas quando o espaço foi aberto para relatos livres, cerca de 21% mencionaram experiências de violência. A pesquisa também identificou que 57,7% das mulheres desconheciam os serviços de apoio disponíveis, evidenciando a necessidade de ampliar o acesso à rede de proteção.
“O sofrimento que chega ao consultório raramente é apenas individual. Quando uma mulher não nomeia como violência o que viveu, isso reflete anos de invisibilidade institucional. A saúde deve criar espaços de escuta para que essa realidade possa ser enfrentada”, ressalta uma das especialistas envolvidas no estudo.
Crianças e adolescentes são quase metade da população, sem espaços adequados
As crianças, que representam 40,95% da população, são centrais nas análises. O diagnóstico constatou que muitas crianças assumem responsabilidades de cuidado, um fenômeno ligado à falta de serviços públicos de apoio. O Projeto K’Anjos, que atua há dois anos como Serviço de Convivência, é a única iniciativa local que atende apenas 25 crianças, fornecendo 500 refeições semanais, mas ainda não possui
