Estudo sugere ligação entre colonização e tratamento da vida selvagem no Brasil
A visão cultural sobre a vida selvagem varia entre América Latina e América do Norte.
A forma como percebemos e interagimos com os animais selvagens é influenciada por heranças culturais profundas. Um estudo internacional inédito revelou que as raízes coloniais europeias ajudam a explicar as diferenças no tratamento da vida selvagem entre a América Latina e países como os Estados Unidos e o Canadá.
A pesquisa identifica dois valores principais que moldam essas percepções: o mutualismo e a dominação. Na América Latina, os animais são vistos como parte de uma comunidade social, dignos de direitos semelhantes aos humanos, enquanto na América do Norte, a visão predominante é a de que os animais são recursos a serem geridos para o benefício humano.
O peso da colonização e da religião
Os pesquisadores relacionam essa divergência às instituições criadas pelos colonizadores. A Grã-Bretanha, que colonizou o norte da América, trouxe uma mentalidade focada no controle ambiental e na extração organizada de recursos. A orientação religiosa protestante do norte da Europa, nos séculos XVI e XVII, reforçou a ideia de domínio humano sobre a natureza.
Por outro lado, a colonização por Portugal e Espanha na América Latina introduziu influências do sul da Europa, onde a visão era mais mutualista. O estudo destaca que:
- Influência Indígena: as populações indígenas na América Latina eram significativamente maiores e mais urbanizadas durante a colonização, possuindo visões mutualistas que se misturaram com as perspectivas ibéricas.
- Papel da Igreja: países com tradição católica tendem a manter visões de coexistência, enquanto aqueles influenciados pela ética protestante têm uma abordagem mais voltada ao controle ambiental.
Implicações práticas na gestão ambiental
Essas diferenças de valores têm consequências práticas, influenciando políticas públicas. Em regiões onde a “dominação” é a norma, o controle letal de animais, como o abate, é uma prática comum para resolver conflitos, como danos a plantações ou acidentes com veículos.
Em contraste, na América Latina e em partes do sul da Europa, o apoio ao abate de animais selvagens é bastante limitado, sendo aceito apenas em situações extremas de risco direto a seres humanos. Essa discrepância pode gerar conflitos quando organizações internacionais tentam implantar modelos de conservação norte-americanos na América Latina, sem levar em conta as sensibilidades culturais locais.
O estudo, que envolveu mais de 18.500 pessoas em 33 países, mostra que esses valores são persistentes e mudam lentamente. No entanto, forças de modernização, como o aumento da urbanização e da educação, estão gradualmente empurrando até mesmo países como os Estados Unidos em direção a uma visão mais mutualista.
