Streaming e cultura em debate sobre soberania
A mobilização global do K-pop e suas implicações no Brasil
A presidenta do México recentemente fez uma aparição marcante no Palácio Nacional ao lado dos integrantes da famosa banda sul-coreana BTS. A boy band, que está em turnê mundial com ingressos esgotados, saudou uma multidão de 50 mil fãs que se reuniram para vê-los. No Brasil, a situação é igualmente impressionante, com cerca de 353 mil ingressos para shows do grupo sendo vendidos em menos de 1h30 para apresentações agendadas para daqui a seis meses.
Esse fenômeno global levanta questões sobre o caminho percorrido até aqui, as direções futuras e a relação entre a mobilização do fandom A.R.M.Y e o atual debate sobre a regulação do streaming no Brasil.
Discutir a regulamentação para fomentar a cultura nacional vai além de simples subsídios; trata-se de soberania, domínio de mercado e crescimento econômico. A sobrevivência dos artistas é crucial, mas o debate sobre a arte como um pilar essencial para uma sociedade crítica e empática é de outra natureza, talvez mais profundo.
Quando a discussão se concentra em plataformas de streaming, a produção de entretenimento se torna massificada, quase industrial. Essa indústria, em seu sentido mais amplo, transforma a arte em um produto consumível.
No início dos anos 2000, a banda Engenheiros do Hawaii questionou como seria a prole do casamento entre as indústrias da informação e do entretenimento, sugerindo que, após essa fusão, a única escolha seria a forma de pagamento por esse conteúdo.
David Foster Wallace, em seu aclamado romance “Graça Infinita”, retratou um futuro distópico em que um vídeo de entretenimento se torna uma arma letal, hipnotizando os espectadores a ponto de não desejarem fazer mais nada além de assisti-lo repetidamente.
Ambas as obras refletem a crescente dependência da sociedade pelo entretenimento e a maneira como a indústria cultural se torna um instrumento de dominação, transcendendo a esfera econômica.
Joseph Nye introduziu o conceito de Soft Power, que reconhece a cultura e a mídia como influências formadoras da reputação de uma nação. Essa reputação, por sua vez, confere poder a um país para moldar comportamentos e tendências globais pela persuasão.
A Coreia do Sul emergiu como uma potência cultural e econômica não apenas pela arte, mas pelo investimento estratégico em sua cultura como um ativo econômico. A estratégia de disseminação cultural foi planejada e executada de forma deliberada.
Na década de 90, o país implementou políticas públicas para promover a “onda coreana” (Hallyu), investindo fortemente em música e audiovisual. Empresas como a Hyundai perceberam que o investimento em cultura gera retornos financeiros mais significativos do que a publicidade tradicional, criando uma narrativa duradoura em torno de seus produtos.
A expansão do K-pop e dos K-Dramas, inicialmente popularizados na Ásia, culminou em uma dominação cultural global. A Coreia do Sul, com sua produção cultural diversificada, tornou-se uma referência mundial, influenciando até a política em países com populações muito maiores.
Essa compreensão de que a cultura popular é um ativo econômico deve orientar as discussões sobre a indústria cultural no Brasil. A chegada das plataformas de streaming trouxe à tona debates sobre regulação e a necessidade de cotas para produções nacionais, em um cenário de fragmentação e entrega sob demanda.
Historicamente, o Brasil lutou por uma maior cota de tela para produções nacionais. Com a consolidação de multinacionais no mercado, a discussão sobre cotas de tela se torna mais relevante. Comparativamente, a Espanha exige 30% de conteúdos nacionais em streamings, enquanto a França impõe que 20 a 25% dos lucros sejam investidos em produções locais. O Brasil, segundo maior mercado de entretenimento sob demanda, discute a adoção de uma cota de 10% e um retorno de investimento de 1% a 4%.
A esperança é que essa “onda coreana” inspire uma reflexão sobre políticas públicas que promovam a produção e o consumo de conteúdo nacional, reconhecendo a importância de dialogar com produções internacionais sem desmerecer a cultura local.
