Cinturão de sargaço do Atlântico se torna permanente e previsível, aponta pesquisa
Estudo revela que o Grande Cinturão de Sargaço se tornou uma característica permanente do oceano.
Um novo estudo internacional confirmou que o Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico é agora uma característica permanente do oceano. A pesquisa, liderada por uma especialista em mudanças climáticas, demonstrou pela primeira vez a capacidade de prever essas florações com meses de antecedência.
O cinturão se estende por mais de oito mil quilômetros, da África Ocidental ao Caribe, com uma biomassa total que ultrapassou 37 milhões de toneladas em 2025. Anualmente, as algas chegam em quantidades catastróficas às praias do Caribe, Golfo do México e costa oeste africana, gerando custos de limpeza que podem alcançar centenas de milhões de dólares.
De fenômeno climático a sistema autossustentável
O Grande Cinturão de Sargaço surgiu em 2011, quando ventos de inverno mais fortes aprofundaram a camada mista do oceano, empurrando nutrientes para a superfície e desencadeando um crescimento explosivo de algas. Inicialmente, os cientistas atribuíam essas florações a forças físicas, como vento e circulação oceânica.
Contudo, o novo estudo revela que essa explicação não é mais suficiente. O cinturão desenvolveu sua própria ecologia interna, com esteiras flutuantes que abrigam comunidades de organismos marinhos capazes de reciclar nutrientes, como nitrogênio, dentro das próprias algas. As algas em decomposição liberam esses nutrientes de volta na água circundante.
“É um exemplo marcante de como o oceano pode se reorganizar muito rapidamente”, comentaram os pesquisadores. “O que começou como um evento impulsionado pelo vento se tornou um sistema biológico autossustentável.”
Previsões que mudam a resposta ao problema do sargaço
A equipe de pesquisa utilizou um modelo baseado em dados de satélite e observações oceanográficas para reconstruir como as concentrações de sargaço mudaram entre 2011 e 2022. O modelo foi testado com sucesso, prevendo concentrações para 2023 e 2024.
A capacidade de prever as florações com meses de antecedência altera fundamentalmente a lógica de resposta. A abordagem atual é reativa: as algas chegam, as comunidades se mobilizam, e recursos são gastos em limpeza, repetindo o ciclo. Previsões confiáveis podem quebrar esse ciclo, permitindo preparação antecipada e até interceptação em águas abertas.
“O fato de agora podermos compreendê-lo e prevê-lo significa que também podemos começar a pensar seriamente em como gerenciá-lo”, acrescentaram os especialistas. Enquanto flutua no oceano, o sargaço absorve dióxido de carbono da atmosfera através da fotossíntese, funcionando como um sumidouro natural de carbono. O problema surge quando ele alcança a costa e se decompõe, liberando o carbono de volta à atmosfera.
Intervenções antes da chegada às praias poderiam transformar o sistema em parte da solução climática. As opções incluem colher o sargaço em alto-mar e afundá-lo no oceano profundo, onde o carbono permaneceria sequestrado por séculos, ou processá-lo em biocombustíveis e outros materiais.
Comunidades absorvem custos há 15 anos
As comunidades afetadas têm arcado com enormes custos nos últimos 15 anos sem ferramentas preditivas, planos de gestão de longo prazo ou coordenação internacional eficaz. O que receberam foram fundos de limpeza emergencial aplicados anualmente a um problema que deixou de ser emergência para se tornar uma condição permanente.
O estudo fornece elementos para uma abordagem diferente: uma explicação clara do funcionamento do sistema, capacidade preditiva demonstrada e uma estrutura científica para pensar em intervenções ao invés de apenas resistência. A pesquisa foi publicada em uma renomada revista científica.
