Mike Walsh destaca na NTT Data Interconnected que a IA deve ser vista como um convite para redesenhar o mundo, mas muitas empresas ainda não compreendem essa perspectiva
Mike Walsh desafia a visão convencional sobre inteligência artificial em palestra inovadora.
Walsh abriu sua palestra com um exemplo impactante: o porto de Busan, na Coreia do Sul, o mais automatizado do mundo. Nesse local, drones descarregam navios antes mesmo de chegarem à costa, e um em cada dez trabalhadores é um robô, evidenciando uma transformação radical na infraestrutura de trabalho.
Esse dado inicial estabelece o tom da palestra, onde Walsh não se limitou a discutir ferramentas ou gestão de mudanças. Sua mensagem central foi de que uma transformação civilizacional já está em curso, enquanto muitas organizações ainda se preocupam em escolher softwares, ignorando a revolução que acontece ao seu redor.
De chatbot a “trabalho digital”: o conceito que vai redefinir o mercado de trabalho
Um dos principais pontos abordados por Walsh foi a diferença entre a inteligência artificial como ferramenta e como trabalho. Ele enfatizou que a IA não é mais apenas chatbots, mas agentes que realizam tarefas complexas.
“A IA é tecnologia que executa funções que antes eram desempenhadas por trabalhadores do conhecimento, escalando como software e acumulando valor como capital.”
Essa mudança implica que, se o trabalho intelectual começa a operar sob as mesmas condições que o software, as regras da economia do trabalho mudam de forma estrutural, não apenas incremental.
Walsh ilustrou essa transformação com exemplos concretos: gerentes de IA em restaurantes KFC na China, entregadores da Amazon utilizando óculos de realidade aumentada e “enfermeiras digitais” que monitoram pacientes em larga escala. Segundo ele, isso altera fundamentalmente o relacionamento das empresas com seus clientes.
IA é um objeto cultural e os custos da dependência tecnológica
Um argumento provocador de Walsh surgiu em uma conversa posterior, onde discutiu as diferenças entre o desenvolvimento tecnológico no Vale do Silício e na China.
“Os países de sucesso incorporam sua cultura e conhecimento em sistemas que amplificam sua vantagem cultural. Comprar tecnologia americana não apenas coloca você em desvantagem, mas também cria riscos significativos.”
Walsh introduziu a ideia de “empresa soberana”, que se refere à capacidade de um país ou empresa de garantir sua própria cadeia de suprimentos cognitiva. Ele questionou como proteger essa cadeia, que abrange desde chips e dados até a energia necessária para operar esses sistemas.
Se qualquer camada dessa cadeia for controlada por outra nação ou empresa, o risco de falhas operacionais se torna real, afetando setores cruciais como saúde e defesa. Walsh acredita que essa discussão precisa ser mais urgente entre líderes de países e empresas.
O foco no Brasil e a cultura de inovação
Walsh revelou que o Brasil foi um foco intencional em sua pesquisa para o novo livro, destacando a cultura de inovação do país.
“Há uma verdadeira cultura de querer fazer as coisas rapidamente aqui, com uma fome por inovação maior do que em muitos lugares da Europa.”
Ele destacou que as empresas brasileiras veem o trabalho digital como uma alavanca, não como uma ameaça. Três exemplos de empresas que estão na vanguarda dessa transformação foram citados: o assistente BIA do Bradesco, sistemas de IA da MAPFRE e a iniciativa PetroNemo da Petrobras, que visa preservar conhecimento técnico crítico.
Previsões econômicas e desafios de absorção
Walsh fez uma previsão sombria sobre a economia nos próximos dois anos, alertando que haverá uma crise devido à falta de produtividade, mesmo com investimentos em IA.
“O que impede a transformação não é a tecnologia, mas a nossa capacidade de absorver essas mudanças.”
Ele argumentou que as empresas que medem transformação apenas pela quantidade de recursos consumidos acabam criando incentivos que geram ineficiências. O verdadeiro gargalo é a capacidade organizacional de se adaptar.
Reavaliando o futuro do trabalho humano
Walsh abordou a questão do futuro do trabalho humano, desafiando a ideia de que a preservação de empregos é o foco correto.
“Preservar certos empregos é perigoso, pois há funções que não deveriam existir e são um desperdício de inteligência humana.”
Ele também destacou que muitas demissões atuais não são caus
