Documentário aponta riscos do crime organizado no setor de gás de cozinha
Debate sobre mercado de gás de cozinha ganha nova dimensão com documentário revelador.
O lançamento do documentário “Cheiro de Perigo no Ar” traz à tona preocupações sobre possíveis mudanças no mercado de gás de cozinha. A produção, que envolve investigações no Brasil, Paraguai e México, alerta para os riscos que alterações regulatórias no setor de GLP podem acarretar, como o aumento de crimes organizados, fraudes e acidentes domésticos.
O tema se torna ainda mais relevante à medida que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) discute medidas que já foram implementadas em outros países, os quais enfrentam sérios problemas relacionados ao abastecimento e à segurança do gás de cozinha.
As mudanças em debate na ANP incluem a flexibilização do enchimento de botijões de diferentes marcas por qualquer distribuidora, a autorização para enchimento fracionado em centrais remotas e a substituição da marca em alto-relevo nos recipientes por sistemas eletrônicos de rastreamento.
Atualmente, o sistema brasileiro está estruturado de forma que a responsabilidade é vinculada à marca estampada no botijão. Isso garante que cada distribuidora responda pela manutenção, rastreabilidade e segurança dos recipientes, criando uma barreira contra fraudes e infiltração criminosa ao longo dos anos.
No Paraguai, a flexibilização do mercado resultou em enchimentos de botijões em postos de combustíveis, o que deteriorou a fiscalização. Hoje, aproximadamente 80% dos recipientes estão vencidos, com muitos sem manutenção adequada, apresentando ferrugem e válvulas comprometidas. Um bombeiro paraguaio destaca que a liberação para enchimentos em estações de serviço trouxe sérios problemas.
O documentário também ilustra a gravidade da situação no México, onde a desregulamentação do setor transformou o mercado clandestino de GLP em uma fonte bilionária para o crime organizado. Quadrilhas começaram a roubar combustíveis de gasodutos e adulterar cargas, com um episódio trágico registrado no ano passado, quando uma explosão de um caminhão de GLP resultou na morte de 31 pessoas, todas ligadas à falta de controle sobre os cilindros utilizados.
As conclusões do documentário se alinham a um estudo da Escola de Segurança Multidimensional da USP, que alerta que as propostas da ANP podem resultar em um “controle formal sem controle real”. A pesquisa indica que a flexibilização e o enchimento remoto podem diluir responsabilidades e aumentar os riscos de fraudes.
Além disso, o diagnóstico revela que facções criminosas já têm influência sobre o varejo de GLP em alguns estados, comparando a situação atual ao que ocorreu no mercado de combustíveis automotivos. Entre 2020 e 2024, movimentações financeiras irregulares ultrapassaram R$ 52 bilhões, com sonegação estimada em R$ 15 bilhões, sugerindo que mecanismos semelhantes podem surgir no setor de gás de cozinha se houver um afrouxamento nas regulamentações.
O modelo brasileiro de distribuição de gás é considerado uma referência internacional, devido à sua capilaridade e responsabilização clara das distribuidoras. O sistema atual permite que milhões de consumidores recebam botijões com identificação permanente, passando por requalificações técnicas regulares.
O alerta central é que mudanças regulatórias sem uma fiscalização robusta podem comprometer mecanismos de segurança estabelecidos ao longo de décadas. O documentário enfatiza que as regras existem para proteger vidas e que qualquer descuido pode levar a consequências graves.
