Brasil corre risco de perder liderança em IA na América Latina devido a problemas de infraestrutura e regulação
Brasil enfrenta desafios regulatórios para manter liderança em infraestrutura de IA na América Latina.
O Brasil pode perder relevância na infraestrutura de inteligência artificial na América Latina se não realizar avanços significativos em ajustes regulatórios e fiscais. Essa preocupação foi expressa por executivos durante evento que discutiu a expansão dos data centers na região.
O foco do debate não foi apenas a evolução tecnológica, mas a capacidade dos países de suportar o crescimento da demanda por processamento de dados. Com a aceleração da inteligência artificial, os principais desafios emergem nas esferas física e regulatória.
Disputa por data centers ganha escala
A América Latina tem se tornado um alvo de investimentos em infraestrutura digital, impulsionada pela crescente demanda por inteligência artificial, serviços em nuvem e processamento em tempo real.
Nesse cenário, cidades como Rio de Janeiro, Campinas, Santiago e Querétaro estão se destacando como locais ideais para novos projetos de grande porte, especialmente campi de data centers com alta densidade energética.
Um projeto em Campinas, por exemplo, prevê uma área de 1 milhão de metros quadrados, com capacidade inicial de 300 MW e potencial de expansão até 1 GW. Essa iniciativa coloca o Brasil na disputa por investimentos globais, mas também revela a complexidade necessária para a realização desse tipo de empreendimento.
Energia garante vantagem, mas não resolve
A disponibilidade de energia, especialmente de fontes renováveis, é vista como um dos principais trunfos do Brasil na atração de data centers.
No entanto, executivos ressaltam que essa vantagem não é suficiente para garantir a realização dos projetos. O ambiente regulatório e o tempo para aprovação de licenças permanecem como obstáculos significativos.
A falta de renovação do regime que reduz a carga tributária para projetos de infraestrutura é uma das principais preocupações para investidores.
Sem previsibilidade em relação a incentivos e custos, alguns projetos podem ser redirecionados para outros mercados da região, que apresentam processos mais ágeis.
Pressão por velocidade
A velocidade na execução de projetos se tornou um critério crucial na escolha de onde investir. Um exemplo mencionado foi o do México, onde um data center foi entregue em cerca de dez meses.
Essa comparação destaca a diferença de ritmo em relação ao Brasil, onde projetos semelhantes enfrentam prazos mais longos devido a etapas regulatórias e burocráticas.
Elena Winters, vice-presidente de negócios internacionais de uma empresa de data centers, afirma que o desenvolvimento de projetos de inteligência artificial depende de uma coordenação eficiente entre diferentes frentes. “Precisamos manter nossa competitividade. Vimos a Índia aprovar recentemente incentivos fiscais de longo prazo, e esse é o tipo de horizonte que o mercado busca”, comenta.
Risco de descompasso
A combinação entre o crescimento da demanda e limitações estruturais levanta preocupações sobre a capacidade futura da região.
O CEO global de uma importante empresa de infraestrutura reforçou que a infraestrutura local será fundamental para sustentar a próxima fase da inteligência artificial. “É sobre construir uma infraestrutura em que o dado brasileiro seja processado localmente. O dado brasileiro tem que ser treinado no Brasil”, afirma.
Sem os ajustes necessários, o Brasil corre o risco de ver sua vantagem competitiva, que se baseia em energia e escala de mercado, ser comprometida pela dificuldade de execução.
Janela aberta, mas condicionada
O evento indica que o Brasil continua sendo um dos principais candidatos a liderar a infraestrutura de inteligência artificial na América Latina. Contudo, essa posição depende menos do potencial e mais da capacidade de implementação.
A disputa por investimentos já começou, e a rapidez na resposta será determinante para definir quais países concentrarão os próximos ciclos de expansão da infraestrutura digital.
